Mostrando postagens com marcador Coletânea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coletânea. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de janeiro de 2010

"CONVERSA DE LOUCO" de Lisélia de Abreu Marques

−A Verdade é perigosa, faz desmoronar as nossas mentiras.
−E as mentiras, pra que servem?
−Pra nos proteger das verdades que não queremos ver.
−E por que não ver a verdade?
−Para não ter de mudar.
−E por que ficar onde estamos?
−Medo. Medo do desconhecido, medo do "talvez", medo de ficar pior do que está. Na mentira já temos um "sim", mesmo falso.
Uma jóia falsa na mão parece melhor do que uma mão vazia, do que a espera, do que o "talvez",  do que um improvável sim. Um "sim" verdadeiro parece tão utópico, tão fora do alcance, tão apenas para os outros.
"A grama do vizinho é sempre mais verde" e isto soa como verdade. Então é mais garantido uma grama sintética sempre verde do que grama nenhuma.
Eis o falso conforto que a ilusão proporciona. A ilusão de um casamento sem paixão. A ilusão de uma profissão sem tesão. A ilusão de que estamos vivendo, quando, na verdade, estamos fugindo da Vida. Afinal de contas, viver é perigoso. A gente pode morrer quando se está vivo. Mas se a gente não se atrever a viver, então, está tudo bem - A morte não procura os que já estão mortos.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

MEU MAIS NOVO MESTRE de Lisélia de Abreu Marques

Desde que o Tuty, um cãozinho mestiço da raça Lhasa apso, passou a morar lá em casa, tem mexido com a vida de todos nós. Aquela pequena bolinha de pêlos andando pela casa. Tão fofo! Eu brincava chamando-o de hamster e era preciso cuidado pra não pisar nele. A alegria sempre presente, a brincadeira, os carinhos; é bom estar perto dele. Ele me parecia sempre feliz. Então comecei a prestar atenção nele e tentar descobrir o segredo de sua felicidade. Comecei a perceber que o Tuty vivia apenas o momento presente. Observei como ele se comportava: às vezes em que o deixava preso por algum tempo e depois o soltava, ele vinha correndo todo feliz, cheio de amor pra dar, saltando e comemorando a liberdade readquirida; ele não demonstrava raiva nem guardava rancor por ter estado preso, não ficava se lamentando ou reclamando. Ele curtia o momento da liberdade. Enquanto preso ele não ficava triste e choroso por estar preso, ele encontrava alguma coisa que o agradasse fazer e fazia; brincava com uma bola, rasgava papel, mordia alguma coisa, bebia, comia, dormia. Ele encontrava algo que fosse bom pra ele naquele momento e vivia aquele presente.
Hoje, eu estava angustiada buscando um propósito maior pra minha vida e pensei no meu mestre cachorro, como ele lida com o seu propósito de vida. Ele não tem um propósito de vida, ele se entrega ao propósito que a natureza tem pra ele. Ele simplesmente se entrega à vida. Ele não se preocupa se vai ter ar pra respirar na próxima inspiração, ele respira, ele confia. E vai vivendo momento a momento como se fosse o único.
Fico pensando no Tuty’s life style. Ele não fez terapia, ele não estudou filosofia. Eu imagino que o segredo da felicidade do Tuty seja simplesmente estar conectado com a natureza, com a Divindade; Ele faz parte do todo, faz parte da natureza e é guiado por ela. Já nós, seres humanos (com ego), na nossa busca por controle e poder, resolvemos nos afastar da natureza, resolvemos dominá-la e controlá-la e pelos resultados que se mostram em toda parte, eu acho que não foi uma boa idéia. No nosso anseio de vencer a dor e a morte criamos uma vida muitas vezes neurótica, sozinha, em guerra. Imagino que pra eu recuperar a conexão que o meu cãozinho tem com a natureza terei que fazer um longo caminho de volta. Terapia, filosofia, e todos os outros “...ia” necessários para desconstruir as defesas, as torres, as estruturas artificiais que criamos para nos sentirmos seguros em nossa fortaleza de solidão, criada a partir do afastamento da natureza que, aliás, ainda, estamos destruindo todos os dias.

terça-feira, 11 de março de 2008

TIRE FÉRIAS de Lisélia de Abreu Marques

Tire ferias dos problemas, dos pensamentos negativos, do pessimismo,
da tristeza, tire férias de ter que estar sempre certo, de se defender,
de defender os outros, tire férias de estar sempre alerta,
de estar sempre se cobrando e se exigindo.

Goze o sol quando ele estiver aconchegante, as cores,
o encontro de gente de todas as partes e culturas,
goze e honre o corpo que você tem, a àgua, o mar, a natureza.

Se permita ser visto e sentido, se permita ver e sentir,
se entregue pra vida, descanse, viva o momento presente sem medo,
seja você mesmo criança, beije na boca, jogue frescobol, pinte, tece, cole,
brinque, se permita não fazer nada, não dar satisfação,
principalmente pra você mesmo.

Tire férias do passado, viva o novo e
volte mais relaxado, mais bonito, mais disposto, mais feliz.

segunda-feira, 10 de março de 2008

PESSOAS COM LASTRO de Lisélia de Abreu Marques


Pessoas com lastro pesam a medida exata para não afundar nem virar;
Pessoas com lastros são firmes e seguras ao mesmo tempo em que
são flexíveis e leves para navegar sem lutar contra o mar.
Pessoas com lastro são o que são, são como são e assim que é.
Pessoas com lastro se encontram e em silencio dizem tudo;
Pessoas com lastro lêem a vida, as pessoas, seus próprios corações;
Pessoas com lastro não precisam de outdoors;
Pessoas com lastro amam a verdade;
Pessoas com lastro amam de verdade.

quarta-feira, 5 de março de 2008

COMO O SOL E A LUA de Lisélia de Abreu Marques


Você é o carnaval, brilhante colorido e cheio de ritmo.

Eu sou a vastidão branca do ártico.
Sou os ventos frios e a paisagem árida.
Eu sou o som dos ventos gelados desenhando o gelo.
Sou o respirar dos ursos polares.
Sou a beleza inigmatica da aurora boreal.

Você é o vermelho dourado do sol,
eu, a palidez iluminada da lua.

Me toque com cuidado,
pois sua luz e calor podem derreter minha delicada camada de neve.
Meu manto é frágil, minha alma dorme.
Venha com passos leves e silenciosos para não me acordar.

Pois quero despertar com um beijo suave em minha face,
vendo um sorriso de manhã em seus lábios.

Não grite, não faça barulho.
Meu silencio é profundo. Estou muito longe.
Venha em silencio e quando eu puder, irei contigo.

MULHERES de Lisélia de Abreu Marques

Quando os homens partiram para a II guerra mundial, as mulheres foram pras fábricas, foram pras lojas, foram pros escritórios assumir as vagas deixadas pelos combatentes e desde então começaram um segundo turno de trabalho que já dura mais de meio século.
O mundo dos negócios era dos homens e pra ganhar o jogo muitas mulheres entraram fundo neste jogo. Ativaram as suas qualidades masculinas e deixaram de lado qualidades femininas que poderiam demonstrar “fraqueza”. Nesta investida no mundo dos negócios, muitas mulheres anularam uma parte importante de suas vidas, muitas, ainda hoje, deixam a maternidade pra depois e aí precisam do auxílio da ciência para gerar seus filhos.
Mulheres que se comportam como homens, que assumem papéis masculinos, que pensam como homens; mulheres que temem e se envergonham do feminino. Um número cada vez maior de lares tem como chefe de família uma mulher. Mulheres, que por força das circunstâncias, fazem o que podem para criar seus filhos sem pai.
Tem sido difícil para as mulheres, como sempre foi, mas em outros momentos da história, as mulheres sofreram agressões de fora pra dentro. Desta vez é mais sério. Muitas mulheres adotaram valores masculinos e abandonaram valores femininos, num movimento de auto-negação. Continuam mulheres por fora, mas sentem como homens, pensam como homens. Não estou me referindo à opção sexual. Estou me referindo à atitude em relação à vida.
O resgate dos valores femininos, da postura feminina diante da vida parece um pensamento vago, afinal de contas quem lembra destes valores? Como se manifesta o poder do feminino? Que poder é este? Como seria o mundo habitado por mulheres, que pensam como mulheres e sentem como mulheres todo o tempo? Quem são as mulheres afinal? Quem somos nós?
Mulheres que nasceram durante este movimento pós guerra, que não conheceram uma realidade diferente ficam com estas perguntas fazendo eco, sem respostas. Como era o mundo feminino antes de nós? Antes de sairmos de casa para trabalhar fora? Alguns livros, algumas tradições nos falam de mulheres que se reuniam pra trabalhar e conversar. Mulheres que ouviam e aprendiam umas com as outras como cuidar, como amparar, como criar, como movimentar a vida. Velhas mulheres que davam suporte às jovens, jovens que ouviam, atentas, os conselhos das demais. Mulheres ensinando a outras mulheres a arte de ser mulher. As mulheres têm isto, ouvem, falam, sentem, choram juntas. Às vezes todas ao mesmo tempo. O trabalhar juntas, em grupo, a comunicação, a empatia, o amparo são qualidades femininas. Mulheres gostam da companhia de outras mulheres e do sentimento de inclusão que isto traz. Mulheres gostam de falar de si, dos seus filhos, das pessoas que amam. Mulheres gostam de compartilhar, compartilhar receitas, compartilhar experiências, compartilhar colo, compartilhar amor. Mulheres gostam de amar e de serem amadas, gostam de família, gostam de beleza, gostam de aconchego. Mulheres gostam de coisas bonitas, de coisas delicadas, de coisas perfumadas. Mulheres gostam de gestos de amor.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

OS TRÊS NÍVEIS DE REALIDADE de Lisélia de Abreu Marques

Esta manhã, depois de levar os meninos para a escola, voltando pra casa, resolvi pedir orientação ao meu eu superior.
No entanto uma voz interna disse: “Você agora resolveu ficar pedindo orientação pro eu superior. Você não pode resolver as coisas sozinha? Fica nesta dependência.”
Então eu pensei sobre este comentário. Pensei que é positivo e desejável manter o máximo contato possível com o eu superior. Estar em contato com ele. Manter um canal de comunicação. Aí veio um sentimento: "vou deixar de ser eu se ficar seguindo o eu superior". Então, identifiquei de quem era a voz interior. Era o meu ego. E pensei: Quem sou eu de verdade? Eu sei que o ego deve se integrar ao eu superior e que o eu superior que é o ser primeiro. Mas senti o medo da fusão e do aniquilamento. Senti que o ego estava temoroso. E pensei que é assim que as coisas devem ser. Que quando me “fundir”, me integrar ao meu eu superior, que afinal de contas sou eu mesma, não será outra pessoa me dominando, serei eu mesma mais plena. Acalmei meu ego e prossegui.
Com esta pequena experiência percebi minha identificação com o ego. Percebi o meu eu observador e percebi que trato o eu superior como “ele”. Não me senti o meu eu superior.
Hoje, a minha consciência, sediada no ego, está predominantemente no primeiro nível - envolvida pelo que eu acredito que existe. Ainda está fazendo escavações e pesquisas arqueológicas. Ainda está com uma lanterna entrando na névoa densa e indefinida dos conceitos equivocados e inconscientes. Estou buscando descobrir a verdade sobre mim. Adentrar ao segundo nível de realidade – ter consciência do que de fato existe. Quando estiver com os dois pés no terceiro nível – aquilo que poderia existir - não chamarei mais o meu eu superior de “ele”. Direi apenas “eu”.

sábado, 26 de janeiro de 2008

MEDO e RAIVA de Lisélia de Abreu Marques

Ao longo de milhões de anos de evolução, desenvolvemos mecanismos de defesa que asseguraram a preservação da nossa espécie. Sob ameaça nosso corpo coloca-se em estado de alerta e aciona vários mecanismos que provocam, entre outras reações, o aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. A respiração acelera, aumenta a capacidade de coagulação do sangue e a energia dos músculos aumenta. Estas mudanças, entre outras, preparam o corpo para fugir ou lutar.
Em face de uma ameaça podemos lutar contra ela ou fugir dela. A ameaça da qual nos defendemos pode ser real - um ataque de um cão violento, um assalto, um perigo imediato - ou imaginária. Uma ameaça imagiária pode ser a presença de um colega muito competente que está chamando a atenção do chefe, por exemplo.
As reações de luta e fuga estão diretamente ligadas à raiva e ao medo. Quando sentimos raiva, lutamos.
Quando sentimos medo, de modo geral, fugimos. Quase sempre é o medo de se ferir, de sofrer e de morrer.
A raiva geralmente encobre uma dor. Ao longo da vida, somamos feridas emocionais, na sua maioria, ainda abertas. Estas feridas quando tocadas por palavras e/ou atitudes doem. Então, nos sentimos ameaçados e podemos responder com a raiva. Por baixo de uma raiva há uma dor. Às vezes nos distraímos com a raiva e não notamos a dor que está por tras dela. Muitas vezes, uma dor tão intensa, que reagimos imediatamente atacando o outro pra nos defender. É importante perceber esta dor. Não deixar que a raiva nos distraia. É bom lembrar que não apenas quem sente medo sente-se ameaçado; quem sente raiva também sente-se ameaçado, sente a dor e ataca de volta.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A CORDA de Lisélia de Abreu Marques

Era uma vez uma corda, e desta corda pequenos pedacinhos se partiram. Cada pequeno pedacinho de corda era igual a corda de onde se originou, posto que já foi um dia a mesma corda.
Estes pedacinhos se sentiam únicos. Indivíduos separados. E a medida que iam se afastando da corda que lhes deu origem iam se esquecendo de quem eram e de como surgiram. As pequenas cordas seguiram caminhos próprios, tiveram suas experiências, usaram os seus livre-arbítrios e conheceram as conseqüências disto. Experienciaram a luz e a escuridão. Na dualidade sua consciência ora se sediava numa ponta, ora noutra ponta, mostrando extremos que pareciam inconciliáveis. Viviam no 8 ou 80. De tanto dar voltas em si mesmas, acabavam formando nós difíceis e doloridos de se desfazer. Quando entravam em briga com outras cordas se amarravam de um jeito que seus ódios mútuos as apertavam mais e mais junto àquelas que desprezavam. E chegando no fundo do poço da escuridão e da dor, sentiram saudade da luz. E lentamente foram descobrindo que a paz era melhor que a guerra, que o mal não valia a pena, que o egoísmo era uma ilusão. E do mesmo jeito que se afastaram da primeira corda, foram, aos poucos, se aproximando e se encontrando e se reconhecendo e se tocando. As cordinhas que, na origem, tinham se partido no mesmo momento, eram como irmãs gêmeas; havia muita afinidade entre elas e sentiam muito prazer em estar juntas. A medida que iam se aproximando e se unindo, mais se pareciam com a corda primeira, que lhes deu origem e esta proximidade fazia com que brilhassem com mais luz. E tendo conhecido a escuridão, a dor e a morte, por contraste entenderam melhor a luz, o prazer e a vida. As suas consciências então, pararam de oscilar entre uma ponta e outra, o que enfraquecia muito a energia delas. A consciência delas se estabilizou no centro, no ponto médio e sentiram paz e equilíbrio e pensaram nas outras cordas que ainda estevam longe e sentiram um desejo profundo de compartilhar com estas, a alegria reencontrada. Então se colocaram a disposição. Estavam atentas, disponíveis aguardando apenas um pedido de ajuda para partirem prestativas ao encontro de suas outras partes ainda separadas. Cada ajuda bem sucedida trazia mais inteireza ao grupo e cada corda que voltava trazia consigo experiências únicas que depois de partilhadas pertenciam a todo o grupo. Com isto, em se fazendo muitas, a primeira corda, a maior e mais forte delas, quando recebe suas partes, agora individualizadas de volta, não recebe mais a mesma parte sua que partiu, ingênua e virgem, recebe uma parte experiente, desbravadora, transformadora que traz muitas estórias para compartilhar, e assim novamente unida, expande e expressa a corda de onde se originou. E todas juntas são muito mais do que eram antes. São ao mesmo tempo o que sempre foram e o que se tornaram. São a origem e o fim. São todas e são, também, apenas uma.

SOBRE UNIDADE E DUALIDADE de Lisélia de Abreu Marques

Todos nós vivemos dentro da dualidade, classificando tudo de bom ou mau, certo ou errado, prazer ou dor, mocinho ou bandido, feio ou bonito, etc.
Faz parte da natureza humana. Da natureza do ego. Mas não precisa ser assim, mais além das polaridades, há o estado unificado de consciência, onde não existe o controle do ego. Onde a ilusão se desfaz.
O ego fortalece o poder dele através do medo e do controle. E um ego fortalecido, no mau sentido, fortalece a dualidade.
Identificados com o nosso ego, com a nossa personalidade, acreditamos que temos que controlar tudo senão a vida desmorona. E quanto mais nos esforçamos para manter tudo sob controle, mais stress sentimos. Temos medo de que se não estivermos controlando a vida, "as coisas", sofreremos conseqüências desagradáveis e até mesmo a morte. Acreditamos que a segurança está no controle, na vigilância.
Nos mantemos sempre alertas, em guerra com o mundo lá fora, achando, que o mundo lá fora é que está em guerra com a gente.
Estar sempre em alerta é a mais clara definição de stress.
Um "remédio" para as polaridades (que fazem as coisas parecerem inconciliáveis, tipo: ou isto ou aquilo, ou eu ou ele, ou o campo ou a cidade, ou nós ou os outros, ou a saúde ou a doença, ou a riqueza ou a pobreza, ou perdedor ou vencedor, ou vida ou morte, etc.) é a entrega, a confiança, a fé na Vida, que em última instância é a fé na gente mesmo, posto que a nossa vida não existe sem nós.
Relaxar e entregar o controle sobre as variáveis ajuda a equilibrar a nossa alma, e uma alma em equilíbrio, traz saúde ao corpo.
Deixar a vida nos levar de encontro ao Grande Rio da Vida e nele flutuarmos com a correnteza, sem luta, e sim em harmonia com o universo só faz bem.
Abandonar a dualidade e aderir à unidade, ao todo, começa por não acharmos que o outro é o outro, e sim que todos somos um só.
Um só planeta, uma só humanidade.
Unidade é a união das polaridades, é o caminho do meio, o ponto zero, o equilíbrio. Tomando como exemplo uma corda, diria que cada ponta seria uma polaridade da dualidade, e o meio exato, a unidade. E todos estes aspectos juntos seriam, ainda assim, a mesma corda.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

MENINAS de Lisélia de Abreu Marques


Minha alma menina
trança, inocentemente,
os meus cabelos brancos
e como duas crianças
rimos alegremente,
celebrando a nossa
eterna infância.

domingo, 30 de dezembro de 2007

DENTRO E FORA de Lisélia de Abreu Marques

A matéria física (nosso corpo, nosso planeta, nosso universo) é a última fronteira da Criação. Após a matéria existe o vazio. A criação - a Vida, se origina em Deus. Deus é a Consciência, a"energia" de mais alta freqüência de vibração. Da mais alta à mais baixa freqüência, se constitui a Criação a partir de Deus até a matéria física. As faixas vibracionais, são a grosso modo como estações de rádio e TV, são freqüências. Um exemplo muito distante, mas só para dar uma idéia, são os estados da matéria com relação à àgua ( gelo, água líquida e vapor). Tudo é água, embora esteja em estados da matéria diferentes. Matéria e energia são a mesma coisa em freqüências de vibração diferentes. Comparando com a água, a energia seria, analogamente, o vapor e, a matéria, o gelo. Do vapor ao gelo, o gelo seria, neste exemplo, a matéria mais densa e mais distante do centro.
A matéria densa (nosso corpo, nosso planeta, nosso universo) constitui a última fronteira - toda a Criação está "dentro" digamos assim. A nossa noção de espaço e tempo não se adapta a outras realidades, portanto esta noção de dentro e fora é um entendimento primitivo nosso, mas ajuda a imaginar o nosso papel na expansão da Criação. Mais além da matéria está o vazio, logo Deus está "dentro de nós" e não "lá fora".
Deus cria a partir de si mesmo, sendo assim toda a Criação se origina de um "pedacinho" de Deus. Deus é indivisível, logo Ele está em cada pedacinho Dele que originou um novo ser, portanto Ele está em toda parte, em todas as criaturas, em toda a Criação. Deus está em você. Não é necessário ir buscá-lo lá fora, em outra criatura ou em outro lugar. Você é a expressão de Deus, você é a expansão de Deus com individualidade e livre arbítrio para experienciar tudo, enquanto se descobre divino e perfeito. Deus está em cada um, portanto além de divino, cada ser é, também, um templo.
Por sermos todos pedacinhos de Deus, somos todos irmãos e por Deus ser indivisível somos todos um com Ele e com os demais, portanto, todos somos Deus.
O Deus que eu sou reverencia o Deus que você é. Namastê.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A GALINHA, O OVO E A NOVA ERA de Lisélia de Abreu Marques

Havia um ovo. Ele se sabia ovo desde sempre. Ele tinha sua forma e aparência e assim que era. Havia outros ovos como ele e ser ovo era estar vivo. Este ovo um dia percebeu que algo estava acontecendo, alguma coisa estava mudando, uma energia diferente, um calorzinho novo. Ele pensou logo no aquecimento global. O ovo foi sentindo este calorzinho e foi se sentindo diferente, desconfortável, as coisas estavam saindo do controle. Ele estava com pensamentos estranhos, irritado e não conseguia dormir direito. O ovo começou a sentir medo. Sentia que algo estava acontecendo e que a vida não seria mais como antes. Então o medo fez com que ele começasse a resistir às mudanças. O futuro era incerto, o tempo passava cada dia mais rápido e ele ouvia os outros ovos comentando de que o fim do mundo estava próximo. Ele ouviu falar em nova era e mudanças globais de larga escala. Ele ouviu falar em morte. Os ovos comentavam que o aquecimento global iria provocar o fim da civilização dos ovos, que uma nova era iria surgir e eles, os ovos, não iriam sobreviver. Ele realmente estava muito assustado. O ovo decidiu então resistir às mudanças, ele era um ovo e iria lutar até o fim para que a vida como ele conhecia não se acabasse. E quanto mais o ovo resistia às mudanças, mais ele sofria, era um esforço tremendo para controlar as coisas. A vida estava mudando, já não era mais a mesma, e por mais que se esforçasse parecia que tinha perdido o controle. O esforço para manter tudo como antes, era desgastante e inútil, ele se sentia um perdedor, estava fraco e deprimido. Chegou ao fundo do poço, não tinha mais forças, nem esperança e pediu ajuda. Rezou à Grande Galinha, a Deusa de todos os ovos. Pediu proteção, ajuda, disse que estava se sentindo fraco e sozinho. Chorou, chorou muito. O ovo, já sem forças para lutar ia se entregando à depressão. Então, numa noite teve um sonho, sonhou que a grande galinha falava com ele. Ela dizia: Meu filho amado, você é perfeito e a ti estão prometidos todos os tesouros. Não lute contra a vida e contra as transformações. A vida é movimento. Se permita ser levado pelo rio da vida e fluir com ele. A morte não existe, é apenas uma transição para uma vida maior. A vida que você leva hoje é passageira, não é a sua verdadeira vida. Você não é um ovo e pronto. Sua verdadeira essência é ser uma galinha como eu. Você é meu filho, feito minha imagem e semelhança. Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser. O ovo acordou do seu sonho emocionado, uma nova esperança tocava seu coração. Ele sentiu coragem para se entregar às mudanças. Sentia o calorzinho da energia da evolução tocar em sua casquinha e lembrava de seu sonho e repetia : “ Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser.” E assim foi, o ovo relaxou e a vida ficou mais leve, ele se pegava cantarolando: ... “deixa a vida me levar, vida leva eu” do Zeca Pagodinho e se sentia mais descontraído e mais bonito. O desgaste que ele tinha, tentando controlar tudo, havia diminuído e ele tinha mais energia pra curtir a vida. Ele percebeu que quando parou de gastar energia lutando contra a morte sobrou mais energia pra viver a vida. O tempo foi passando e um dia, algo horrível começou a acontecer. Os ovos, seus amigos, que toda a vida compartilharam o mesmo ninho que ele começaram a se quebrar. Era horrível, uma desolação - ovos partidos, casquinhas pra todo lado, um vazio, não havia nada dentro deles, ele se sentiu apavorado, os ovos que ainda estavam inteiros começaram a se lamentar e se voltar contra a grande galinha, dizendo que ela os tinha abandonado e que ela, na verdade, nem existia, porque se existisse não permitiria tanta destruição. O ovo estava desolado, ele lembrava do sonho e duvidava de si mesmo. Pensava: - como pode ser? E as promessas que sempre ouvimos de salvação? Eles sempre foram ovos bonzinhos, bons amigos, corretos, não é justo que isto aconteça com eles. A destruição, a morte , o desespero e o caos era só o que se via e sentia. O ovo estava confuso, apesar de toda aquela desgraça ele ao mesmo tempo se sentia leve, parecia que a vida estava melhor, mesmo estando pior, ele não entendia. Havia um equilíbrio dentro dele, mesmo com os ovos “morrendo” ao seu lado ele sentia uma paz profunda como jamais havia sentido antes, era quase um estado de graça e então, ele ouviu um estalo e outro, e passivo apenas observava e aceitava as coisas como estavam sendo naquele momento. Ele estava presente no aqui e no agora intensamente; e de repente uma luz muito grande surgiu e irritou seus olhos, ele respirou uma brisa fresca e quando ele conseguiu abrir os olhos um mundo de cores e formas jamais percebidas, apareceram ao seu redor. Era um mundo enorme, sem fim, rico, com milhões de formas de vida, antes inimagináveis. E ela estava lá, a grande galinha e olhava pra ele. Então ele perguntou: - eu morri? Estou no céu? E a galinha carinhosa respondeu: - Não meu filho você nasceu, você se tornou aquilo que você foi criado para ser. Olhe pra si mesmo e veja. Então ele se olhou e viu que era um pintinho e se parecia muito com a grande galinha. E ele perguntou: e os meus amigos, o que aconteceu com eles? Então ela se afastou e ele pode ver atrás dela todos os seus amigos ovos, que haviam tido suas casquinhas quebradas, também pintinhos como ele. E foi uma alegria tão grande, tão grande... Foi emocionante! Tudo fez sentido, ele entendeu então porque as coisas tinham acontecido daquela maneira, porque os ovos precisavam morrer para os pintinhos nascerem e serem livres pra crescerem e se tornarem aquilo que eles foram criados pra ser. Ele entendeu que o que parecia destruição e caos era transformação. A galinha e os demais pintinhos saíram passeando com ele pelo jardim e mostraram as sementes morrendo para o nascimento do broto, mostraram o sol irradiando energia transformadora para que isto acontecesse, mostraram outros pintinhos mais velhos perdendo sua plumagem para que as penas permanentes surgissem e ele foi entendendo tudo, entendendo como morte e vida são a mesma coisa, como tudo segue o fluxo de transformação. Então ele parou e pensou e perguntou pra galinha: - Mãe, por que quando eu era ovo não via nada disso? Então cheia de amor a galinha respondeu: Quando você era ovo, você tinha uma casquinha em volta que limitava sua percepção da realidade mais ampla, você vivia enclausurado naquela casquinha que impedia que você percebesse a luz do dia brilhando com toda a sua intensidade, a casquinha, o seu corpo físico durante aquele estágio de desenvolvimento limitava a sua percepção. O pouco que você ouvia daqui, chegava lá destorcido e abafado. Quando eu falava com você, você achava que era sonho. Quando seus irmãos que haviam rompido a casquinha se aproximavam de você, você não os via e quando sentia a presença deles, achava que eram fantasmas. Este período de ovo é uma fase muito difícil, porque as limitações impostas pelas condições de ovo dificultam o contato com o mundo aqui. E o medo do desconhecido, o apego a vida de ovo, a resistência à mudança, às vezes até afasta um ovo dos demais e, isolado, mais longe, mais frio fica e mais solidão sente o ovo. É um momento passageiro, de transição, mas quando o ovo se apega muito a este estágio da vida, fica mais difícil pra ele se permitir transformar pelo calor da evolução. Veja, meu filho, o seu ninho, ainda têm ovos lá que estão amadurecendo e nós aqui estamos torcendo pra que eles se entreguem ao calor da evolução e logo possam estar pintinhos como vocês. Então o pintinho olhou pros seus irmãos ainda ovos com muito amor e olhou pra si e pro seus irmãos pintinhos e pensou: - então é verdade, “nós somos aqueles por quem esperávamos” e todos juntos se aproximaram da galinha e com o calor dos corpos deles, todos unidos, assistiram os últimos ovos eclodirem.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

FAZENDO POESIA de Lisélia de Abreu Marques


MERGULHAR NAS ÁGUAS DE UM POEMA

Mergulhar nas águas de um poema é mais do que uma benção,
é poder viajar sem estradas e sem horários
pelo mundo do imaginário,
é viver sem medo do anoitecer,
brincando, livremente, com as fadas da imaginação.
É se distanciar para sonhar e encontrar a realidade,
pois toda poesia leva o poeta a viajar por dentro de si mesmo
na ânsia de encontrar o caminho de libertar a própria expressão e,
quando, enfim, encontra este seu caminho, já leve, liberto,
ele desliza pelo verbo e
descansa magicamente
na palavra.

DIAS DE SOL E DIAS DE CHUVA

Não espere me encontrar todo dia igual.
Tenho dias de sol e dias de chuva.
Quando os dias são de sol, sou radiante, segura, perfumada e feliz.
Piso confiante a terra que me acolhe e
rio o riso aquecido de otimismo.
Já nos dias de chuva, choro.
Choro lágrimas de solidão;
Choro com o coração apertado
pela pequenês do alcance da minha imaginação.
Não espere me encontrar todo dia igual,
pois há dias de sol e dias de chuva.
E, muitas vezes, são estas lágrimas
que regam as raízes do girassol que brota em minh'alma.

O TAMANHO

Crescer, crescer até chegar ao céu
e de lá olhar e se sentir só, só entre tantos
e querer se sentir pequeno para de novo ter colo e carinho e
alguém para dizer que nos ama
quando nos sentimos frágeis e sensíveis.
E no sonho de ser grande não achar a essência e
na pequenêz não achar a força;
então pedir, primeiro baixinho, depois com os olhos,
tentar dizer com o coração
e ter esperança de que alguém vai ouvir e ajudar
a não ser tão grande que se perca,
nem tão pequeno que não se firme,
a achar a medida exata
para ser apenas
gente...

HOMENS LATINOS

Rostos agonizantes
Histórias sofridas
De povos outrora vibrantes
Agora oprimidos
Agitam bandeiras
Soam hinos
São homens latinos

SE

O te querer e o não te querer me tomam de assalto
cada vez que te vejo passar todo faceiro
a me sorrir aquele riso gostoso
e aí eu finjo muito mal fingido que não me importo e
que quando olho pro teu lado não é você que quero ver.
Mas, é impossível ignorar este moço bonito que passa e me perturba
e simplesmente fazer de conta que não toca, que não mexe.
Numa última tentativa para disfarçar, volto ao meu caderno
e escrevo palavras que não consigo entender,
pois minha mente vaga longe imaginando como seria se o
"se" não fosse apenas uma conjunção condicional
e de repente se tornasse realidade tudo o que se imagina:
se você me notasse ...
se você me quisesse ...
se você se entregasse ...
se ...
se ...
se ...

NAVEGADOR ERRANTE

Tua alma errante, sem lar e sem destino,
por momentos aporta, quase sem querer, no cais do meu carinho.
Sem âncoras, sequer baixas as velas onde sopram, sempre,
os ventos de outros portos e
o perfume de outras mulheres.
Onde o mistério das possibilidades sopra a te chamar infinitamente.
Neste cais tua alma encontra a minha,
conheço teu cheiro e sabes meu nome.
Em silêncio, tocas onde os meus segredos dormem,
e me tens vagando, entregue, de olhos fechados
tendo por recompensa, o prazer de te ter por apenas um momento,
talvez infinito, talvez saudade, o momento
eternizado
no exato instante
em que te amei.

O ENCONTRO

O destino se encarregou de colocar-me ao teu lado,
o amor me deixou com vontade de nunca mais sair daqui.

QUAL QUER?

-" Qualquer dia te ligo." ele disse.

E eu resmunguei:

Qualquer dia te ligo,
Qualquer dia te vejo;
Qualquer dia te amo...

Qual quer?

Qualquer dia?
Qualquer coisa?
Qualquer vida?

Eu não!

DESCALÇA

Descalça, na areia da praia, marquei meu caminho.
Rumava ao sol,
Deixava o solitário ninho.
No caminho do riso me lancei,
Lembrei teu sorriso e chorei.
Vou só,
trilhando caminho que não trilhei,
espalhando o bem que não espalhei,
tentando esquecer este amor
e o homem a quem amei.

LEMBRANÇAS PERDIDAS

Você é como as lembranças perdidas,
um dia disse adeus e a elas se juntou.

HOJE EU QUERIA SER EU

Hoje eu queria ser mais alta, ter pernas longas,
bem torneadas e bronzeadas.
Queria ter um cabelo castanho
longo o suficiente pra chegar na última costela, que brilhasse e
se mexesse como os cabelos dos comerciais de shampoo.
Queria ter lábios grossos e olhos amendoados e misteriosos.
Queria usar um vestidinho preto curto e esvoaçante com alcinhas,
uma sandália alta e ser toda perfeita, numa morenês irresistível.
Hoje queria me sentir outra.
Esquecer quem sou e me sentir livre,
mais leve, mais jovem, sem me vigiar, ordenar ou cobrar.
Hoje queria ser diferente. Queria acreditar na magia.
Me embriagar de sonhos e viver cada fantasia
como se fosse a mais perfeita realidade.
Hoje eu queria ser eu.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

DUVIDANDO DE DEUS de Lisélia de Abreu Marques

Eu acredito que Deus existe, que é legal, mas não encontro no meu coração, segurança para acreditar no que Ele diz. Não acredito quando Ele diz que se eu me entregar à vida não irei morrer. Não acredito que posso confiar sem medo. Não acredito que se eu trabalhar no que gosto serei feliz e sobreviverei. Eu não acredito Nele. Isso significa que não acredito em mim. Que não confio no que digo e penso sobre espiritualidade, sobre fé, sobre o poder de criar o próprio destino. Todas estas coisas que eu acredito com o intelecto, na verdade, não banco com o coração. Eu sei que as coisas que Deus diz e que repito são certas, mas uma coisa é saber intelectualmente, a outra é acreditar. Falta fé. Falta me lançar e acreditar que "andarei sobre as àguas", quando o que eu realmente acredito é que afundarei.
Eu sei que o que eu acredito cria a minha realidade. Então, se eu não acredito, as coisas boas que eu gostaria que acontecessem não vão acontecer. Eu consigo acreditar que posso estragar a minha vida, que posso arruiná-la, que posso criar o meu inferno, mas não me acho hábil para construir o meu paraíso. Existe medo, existe dúvida, existe escuridão e o medo me pára. O medo me tolhe. O medo me assusta com a sua cara feia. O medo é o grande bicho papão. Tenho medo da dor e de sofrer. Tenho medo de morrer. Eu sei que onde existe um medo também existe um desejo. O que significa que se eu temo a dor e o sofrer existe um desejo de dor e sofrimento. Eu temo porque sei que posso criar esta dor e este sofrimento pra mim. De fato, crio. Estrago a minha felicidade por coisas pequenas, não me permito aproveitar os momentos. Mantenho um mau humor e uma crítica de plantão, bem a mão, para olhar procurando, com uma lupa, qualquer coisinha que possa usar para não sentir as coisas boas da vida. Isso é desejar o sofrimento ao invés da felicidade. Faço sem muita clareza, faço meio no automático, faço até por hábito. Que horror! Se eu desejo, mesmo sem ter clareza, a dor, com certeza devo desejar a morte também. Será? Mas tem coisas em mim que eu gostaria que morressem. Gostaria que as minhas exigências de segurança morressem, que a minha falta de fé morresse, que a minha covardia perante a vida morresse, que essa pessoa que eu criei pra "inglês vê" morresse.
Se todas estas partes morressem eu nasceria de verdade. Se eu nascesse, não mais me deformaria ou amputaria a sensibilidade e a capacidade de sentir intensamente. Se eu nascer de novo quero poder florescer em esplendor e dizer não às amarras do medo. Dizer: -Medo, eu desejo que você volte a ser amor. Quero desentortar todas as distorções que criei entortando a verdade. Quando eu nascer de novo, quero dizer sim pra coragem, sim pra fé, sim pra vida.
Eu quero dizer sim pra Deus, quero confiar Nele e me entregar.
Quero ter fé. A fé virá quando eu enfrentar o medo. E eu enfrentarei o medo quando confiar em mim. Então, quando eu acreditar em mim, acreditarei em Deus.
Brasília, 07 de dezembro de 2007.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O ROMANCE DO TATU (em mensagens de celular) de Lisélia de Abreu Marques


Cadê tu Tatu?
O Tatu não tá aqui
Aqui ninguém viu,
O Tatu sumiu.

O Tatu não sumiu
Tatu tá no mato
Para cá e para lá,
O Tatu topava no ato
Tá no lago Paranoá.

Mas o Tatu não tá,
Eu só posso lamentá,
Sei que Tatu vai voltá
Será que vai ligá?
Tatu é safado,
Diz que tá no mato ocupado
E desde que se foi
Não ligô nem pra dizê oi.

Tatu sente falta
E quer com ela falar
Tatu promete que, sem falta,
De noite vai ligar.


Tatu não é safado,
Ligou conforme o combinado,
Ligou uma, ligou duas, ligou três.
Será que mudou de vez?

Tatu foi com os amigos conversar
E começou a bebericar,
Aí tatu ficou doidão
E não conseguiu chegar ao orelhão.

Tatua já devia imaginar
Que ao Tatu não se pode elogiar.
Ligou uma, ligou duas, ligou três,
Mas não mudou de vez.
Tatu não está doidão
A ponto de não chegar ao orelhão,
Tatu está bem ativo,
Fez até verso criativo!

Tatu ligou uma , ligou duas , ligou três,
Mas não pegou hábito de vez
Diz que faz e acontece,
Mas não é o que parece:
-Te ligo amanhã,
Disse Tatu todo assertivo,
Mas não ligou,
Só enviou verso criativo.

Senti sua falta,
Assumo em voz alta,
Mas durma com Deus,
Deixo aqui meu adeus.
Adeus Tatu.


Brasília, 06 de dezembro de 2007.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

LUTANDO COM A VIDA de Lisélia de Abreu Marques

Tô aqui sofrendo, tá doendo e não passa. Quando as coisas não acontecem como eu sonho, planejo, espero que aconteçam, eu sofro. Eu sintonizo aquela estação de desesperança e dor. Coloco aqueles óculos de lentes cinzas e arrasto as minhas correntes como uma alma penada num castelo mal assombrado. Não porque eu queira sofrer, mas porque dói. A dor acontece quando o que eu queria que fosse bate de frente com a realidade que não é como eu queria que fosse e sim como ela é mesmo. A dor é a tensão entre estas duas forças em choque, em luta. Estou sofrendo porque queria que a vida fosse toda certinha do jeito que eu acho que ela deveria ser. Só que a vida não é. Mas eu não aceito que a vida seja diferente do que eu quero que ela seja. Continuo querendo que a vida seja do meu jeito. Aí eu meço forças com a vida. A força do meu querer contra a força da vida. Quem será que é mais forte, o meu querer ou o querer da vida? É óbvio que a vida, a realidade é mais forte que o meu querer, então eu me revolto, eu me desgasto, eu suo, eu sofro. Eu sei que há coisas que dependem de mim e eu posso fazer acontecer e que há outras coisas que não. Sei que não posso fazer ninguém me amar ou estudar ou mudar de vida. Não posso fazer ninguém largar um vício ou pensar diferente do que pensa. Só a própria pessoa tem este poder. Então eu me deparo com a minha própria impotência e me sinto vulnerável, sem forças para forçar a vida a ser como eu quero que ela seja. Sinto que a vida é a mais forte e eu a mais fraca. A vida lá fora vence e eu, aqui, perco. Aos vencedores à vida, aos perdedores, à morte. Acaba tudo virando uma enorme questão de vida ou morte e eu não posso perder, eu não posso morrer. Então eu parto pra uma luta corpo a corpo com a vida.
Todo mundo sabe que a força com que a gente empurra a parede é a mesma força que a parede imprime de volta na nossa mão. Então quanto mais eu bato na parede, mais a minha mão se arrebenta e dói. O tanto que eu bater na vida é o tanto que eu vou apanhar dela. O tanto que eu relaxar com a vida é o tanto que a vida vai relaxar comigo. O tanto que eu acarinhar a vida vai ser o tanto que ela vai me acarinhar de volta. Então, se eu tô aqui sofrendo é porque estou forçando a minha vontade sobre a vida, querendo dobrá-la custe o que custar. Sendo assim, só me resta então relaxar e baixar a guarda. Eu até posso entender isto. Uma coisa é entender, a outra é querer. Eu entendo que malhar faz bem, mas e daí? Eu até entendo que não posso forçar a vida ou os outros a fazerem a minha vontade, a realizarem os meus desejos, mas como parar de querer isto? Só consigo imaginar um jeito: Se curvando à realidade. Aceitando que há coisas que eu não posso ter do meu jeito. Essa é a realidade e, a menos que eu esteja perdendo a razão e vendo tudo distorcido, é assim que é.
Esta situação me lembra a Oração da serenidade, é bem isto, nela ora-se: Deus, dê-me serenidade para poder aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso mudar e sabedoria para distinguir umas das outras... Dá-lhe serenidade!!! Dá-lhe sabedoria!!! Ou melhor, dê-me serenidade e dê-me sabedoria. Amém.
Brasília, 04/12/2007.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

CORAGEM de Lisélia de Abreu Marques

Deus pai e mãe, dê-me forças para desenvolver minha coragem.
Coragem para olhar para dentro e descobrir o que tenho escondido de mim mesma;
Coragem para olhar de frente para estas partes de mim que rejeitei e rejeito ainda;

Coragem pra mudar meus hábitos, principalmente aqueles que me são nocivos, mas me dão prazer;
Coragem para deixar ir o que não me serve mais, o que já teve o seu tempo e função
e que agora carrego como um peso disfuncional;
Coragem para me permitir perder o controle que me limita e
me entregar ao fluxo divino do universo;
Coragem para confiar em Ti e me entregar;
Coragem para me permitir ser feliz;
Coragem para quando todas esses pedidos se realizarem não fugir e me esconder;
Coragem para me revelar a mim mesma e aos outros;
Coragem para ser verdadeira com a vida, com os outros, comigo mesma,
com benevolência e amor;
Coragem para eu me deixar crescer e me tornar aquilo que o Senhor sonhou para mim;
Coragem para fazer o caminho de volta à luz;
Coragem para me desapegar do conhecido e olhar para o desconhecido,
para o novo, com confiança e
Coragem para não desistir desta prece.
Brasília, 18/03/2005.

DEUS É FELIZ de Lisélia de Abreu Marques

Estes dias me dei conta de que Deus era feliz. Fiquei surpresa com esta idéia. Sempre imaginei Deus um cara chato, carrancudo, caxias, pentelho mesmo! Pegando no pé de todo mundo pra que todo mundo fosse certinho. Percebi que esta chata era eu, eu fazendo Deus minha própria imagem e semelhança. Deus era feliz, independente de qualquer coisa, independente da minha projeção, da minha chatice, da minha própria exigência de perfeição. Deus está numa boa, vivendo feliz e curtindo a eternidade numa boa. Esta idéia me trouxe duas conclusões, a primeira: um cara de bem com a vida, só pode ser um cara legal e isto melhorou muito a imagem que eu tinha de Deus. E já que ele é um cara legal, eu quero ser amiga dele. Afinal de contas quem quer um chato carrancudo por perto dizendo que você está errada toda hora? Ninguém. Agora, ser amiga de um Deus gente boa, é outro departamento. A segunda conclusão foi que se ele é bacana e feliz, vai querer que todos se sintam felizes também, vai aprovar a alegria, a festa, a folga, a curtição e todas as coisas que fazem a vida parecer férias. Bom demais. Foi aí que eu esbarrei em outra neura minha. A vida tinha que ser chata pra parecer que estava sendo levada a sério. Olha que loucura!? , mas aí já é outro texto. De insight em insight fui vendo que as cores do mundo que vejo são pintadas pelas lentes dos óculos que escolho usar. Deus não tem nada a ver com isto e eu sempre botava a culpa nele. Nesta hora acho que ele está curtindo muito prazer em ser quem é e viver a vida que vive. Nesta hora, eu queria mesmo, era me sentir a imagem e semelhança Dele e criar pra mim uma vida como a Dele: de prazer, amor, criatividade, felicidade, novidade e tudo o mais que existe de bom. Afinal, filho de peixe, peixinho é. Queria por mais fé no que se diz por aí: " se eu não sou o dono do mundo, pelo menos sou filho do dono", no caso, filha. Uma hora eu chego lá.
Brasília, 03/12/2007.

LONGE DE CASA de Lisélia de Abreu Marques

Acho que a minha primeira pergunta foi: - Por que estou aqui? Não aceitava muito bem a idéia desta vida, deste planeta. Inconformada, não aceitava a idéia de viver aqui. Uma falta de pertencimento, uma nostalgia de algum lugar que não lembro, mas sinto que me é caro. Fui por muito tempo uma estrangeira neste planeta. Às vezes, ainda sinto isto na alma. Por que eu? Por que aqui? Por que agora? Toda a minha vida estas perguntas pairaram sobre mim como fantasmas. Eu procurava as respostas, mas não sabia onde encontrá-las, nem quais eram as perguntas corretas a se fazer.
Vaguei batendo de porta em porta do conhecimento. Contava com a minha inteligência, com a minha persistência e com esta fome de respostas que não me deixava parar de procurar.
Um engano me fazia estudar cada vez mais, o engano de acreditar que a minha fome fosse ser aplacada por um conhecimento que viesse de fora, acreditava que as respostas estavam lá fora e eu iria encontrá-las. Às vezes estudava à exaustão. Mas acho que a minha fome, no fundo não é só de conhecimento, é de alegria. Não ter aceitado, de coração, estar neste mundo talvez tenha aumentado uma angústia que parecia sem fim.
Eu acho que agora entendo porque e pra que eu vim e o que tenho que fazer aqui. Mas meu coração ainda não aceitou estar longe de casa, de uma casa que não sei onde fica, nem como é. Ele sente saudade de um lugar que não lembro, de um povo que desconheço e de uma paz há muito perdida.
Brasília, 03/12/2007.