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sábado, 5 de dezembro de 2009

SENTAR-SE À JANELA DO AVIÃO de Alexandre Garcia


Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme. Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem. Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia...
Cresci, me formei, e comecei a trabalhar. No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante. As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia. No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal. O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido. As poltronas do corredor agora eram exigência. Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos 'acasos' do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível. O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona. Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque. Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu. Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer. Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista.

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?


Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida. A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos. Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e 'ganhar tempo', pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar. A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, “a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

UMA HISTÓRIA DE CARÍCIAS de Claude Steiner



Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, Antônio e Maria, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo.

Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar doença nas costas que as fazia murchar e morrer.

Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão na sacolinha surgia um Carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz o Carinho se expandia e se transformava num grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia toda bem.

As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.

Um dia uma bruxa má ficou brava porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e unguentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã ela chegou perto de Antônio enquanto Maria brincava com a filha e cochichou em seu ouvido: "olha Antônio, veja os carinhos que Maria está dando à Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum pra você".

Antônio ficou admirado e perguntou: "Quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente na sacola?"

E a bruxa respondeu: "Eles podem se acabar e você não os ganhará mais". Dizendo isso a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito.

Antônio ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então começou a se queixar que Maria, de quem gostava muito, e Antônio também parou de dar carinhos aos outros, reservando-os somente para ela.

As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos ficaram cada vez mais mesquinhos.

As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quente e acarinhados e algumas chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes.


Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir unguentos e poções. Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porque se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e unguentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam um saquinho que era muito parecido com o saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os Espinhos Frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem.

Daí para frente, sempre que alguém dizia "Eu quero um Carinho Quente", aqueles que tinham medo de perder um suprimento, respondiam: "Não posso lhe dar um Carinho Quente, mas, se você quiser, posso dar-lhe um Espinho Frio".

A situação ficou muito complicada porque, desde a vinda da bruxa havia cada vez menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los.

Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam se reunir em grupos de três, quatro, cinco sem se preocuparem com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a se juntar aos pares, e a reservar todos seus Carinhos Quentes exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para obter dinheiro para comprá-los.

Outras pessoas se tornavam simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda, pegavam os Espinhos Frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes. Eram na verdade carinhos falsos, de plástico, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas se juntavam e trocavam entre si, livremente, os seu Carinhos Plásticos. Sentiam-se bem em alguns momentos mas, logo depois sentiam-se mal. Como pensavam que estavam trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.

A situação, portanto, ficou muito grave.

Não faz muito tempo uma mulher especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar na bruxa e não se preocupava que os Carinhos Quentes acabassem. Ela os dava de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude porque essa mulher dava às suas crianças a ideia de que não deviam se preocupar com que os Carinhos Quentes terminassem, e a chamavam de Pessoa Especial.

As crianças gostavam muito da Pessoa Especial porque se sentiam bem em sua presença e passaram a dar Carinhos Quentes, sempre que tinham vontade.

Os adultos ficavam muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício de seus Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças, porém, apesar da lei, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou que alguém os pedia. Como existiam muitas crianças parecia que elas prosseguiram seu caminho.

Ainda não sabemos dizer o que acontecerá. As forças da lei e da ordem dos adultos forçarão as crianças a parar com sua imprudência? Os adultos se juntarão à Pessoa Especial e às crianças entenderão que sempre haverá Carinhos Quentes, tantos quantos forem necessários? Lembrar-se-ão dos dias em que os Carinhos Quentes eram inesgotáveis porque eram distribuídos livremente?

Em qual dos lados você está?

O que você pensa disso?


Do livro: A Carícia Essencial - Roberto Shinyashiki - Editora Gente

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

TORNAR-SE OCEANO de Osho

Diz-se que, no momento em que o rio está prestes a
cair no oceano ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada,
os cumes das montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas,
através dos povoados,
e à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele
nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência.
Você pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
Somente quando ele entrar no oceano é
que o medo desaparecerá.
Porque somente assim o rio saberá que
não se trata de desaparecer no oceano,
mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e
por outro lado é renascimento.
Assim somos nós.
Só podemos ir em frente e arriscar.
Coragem !!!
Avance firme e
torne-se Oceano!!!

segunda-feira, 10 de março de 2008

O QUE VOCÊ É FALA MAIS ALTO

Era uma tarde de domingo ensolarada na cidade de Oklahoma. Bobby Lewis aproveitou para levar seus dois filhos para jogar mini-golf. Acompanhado pelos meninos dirigiu-se à bilheteria e perguntou:
- Quanto custa a entrada?
O bilheteiro respondeu prontamente:
- São três dólares para o senhor e para qualquer criança maior de seis anos.
- A entrada é grátis se eles tiverem seis anos ou menos. Quantos anos eles têm?
Bobby informou que o menor tinha três anos e o maior, sete.
O rapaz da bilheteria falou com ares de esperteza:
- O senhor acabou de ganhar na loteria, ou algo assim? - Se tivesse me dito que o mais velho tinha seis anos eu não saberia reconhecer a diferença. Poderia ter economizado três dólares.
O pai, sem se perturbar, disse:
- Sim, você talvez não notasse a diferença, mas as crianças saberiam que não é essa a verdade.
Sem a consciência que Bobby tinha da importância de sermos verdadeiros em todas as situações do cotidiano, muitos de nós apresentamos uma realidade distorcida aos nossos filhos.
Tantas vezes, para economizar pequena soma em moedas, desperdiçamos o tesouro do ensinamento nobre e justo.
Desconsiderando a grandeza da integridade e da dignidade humanas, permitimos que esses valores morais sejam arremessados fora, por muito pouco.
Nesses dias de tanta corrupção e desconsideração para com o ser humano, vale a pena refletir sobre os exemplos que temos dado aos nossos filhos.
Às vezes, não só mentimos ou falamos meias verdades, como também pedimos a eles que confirmem diante de terceiros as nossas inverdades.
Agindo assim, estaremos contribuindo para a construção de uma sociedade moralmente enferma desde hoje.
Ademais, o fato de mentirmos nos tira a autoridade moral para exigir que os filhos nos digam a verdade, e isso nos incomoda.
Pensamos que pequenas mentiras não farão diferença na formação do caráter dos pequenos, mas isso é mera ilusão, pois cada gesto, cada palavra, cada atitude que tomamos, estão sendo cuidadosamente observadas e imitadas pelas crianças que nos rodeiam.
Daí a importância da autoridade moral, tão esquecida e ao mesmo tempo tão necessária na construção de uma sociedade mais justa e digna.
E autoridade moral não quer dizer autoritarismo. Enquanto o autoritarismo dita ordens e exige que se cumpra, a autoridade moral arrasta pelo próprio exemplo, sem perturbação.
A verdadeira autoridade pertence a quem já conquistou-se a si mesmo, domando as más inclinações e vivendo segundo as regras de bem proceder.
Dessa forma, o exemplo ainda continua sendo o melhor e mais eficaz método de educação.
Sejamos, assim, cartas vivas de lições nobres para serem lidas e copiadas pelos que convivem conosco.
Diz o poeta americano Ralph Waldo Emerson: "quem você é fala tão alto que não consigo ouvir o que você está dizendo."
Em tempos de desafios e lutas, quando a ética e a moral são mais importantes que nunca, assegure-se de ter deixado um bom exemplo para aqueles com quem você trabalha ou convive.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A CORDA de Lisélia de Abreu Marques

Era uma vez uma corda, e desta corda pequenos pedacinhos se partiram. Cada pequeno pedacinho de corda era igual a corda de onde se originou, posto que já foi um dia a mesma corda.
Estes pedacinhos se sentiam únicos. Indivíduos separados. E a medida que iam se afastando da corda que lhes deu origem iam se esquecendo de quem eram e de como surgiram. As pequenas cordas seguiram caminhos próprios, tiveram suas experiências, usaram os seus livre-arbítrios e conheceram as conseqüências disto. Experienciaram a luz e a escuridão. Na dualidade sua consciência ora se sediava numa ponta, ora noutra ponta, mostrando extremos que pareciam inconciliáveis. Viviam no 8 ou 80. De tanto dar voltas em si mesmas, acabavam formando nós difíceis e doloridos de se desfazer. Quando entravam em briga com outras cordas se amarravam de um jeito que seus ódios mútuos as apertavam mais e mais junto àquelas que desprezavam. E chegando no fundo do poço da escuridão e da dor, sentiram saudade da luz. E lentamente foram descobrindo que a paz era melhor que a guerra, que o mal não valia a pena, que o egoísmo era uma ilusão. E do mesmo jeito que se afastaram da primeira corda, foram, aos poucos, se aproximando e se encontrando e se reconhecendo e se tocando. As cordinhas que, na origem, tinham se partido no mesmo momento, eram como irmãs gêmeas; havia muita afinidade entre elas e sentiam muito prazer em estar juntas. A medida que iam se aproximando e se unindo, mais se pareciam com a corda primeira, que lhes deu origem e esta proximidade fazia com que brilhassem com mais luz. E tendo conhecido a escuridão, a dor e a morte, por contraste entenderam melhor a luz, o prazer e a vida. As suas consciências então, pararam de oscilar entre uma ponta e outra, o que enfraquecia muito a energia delas. A consciência delas se estabilizou no centro, no ponto médio e sentiram paz e equilíbrio e pensaram nas outras cordas que ainda estevam longe e sentiram um desejo profundo de compartilhar com estas, a alegria reencontrada. Então se colocaram a disposição. Estavam atentas, disponíveis aguardando apenas um pedido de ajuda para partirem prestativas ao encontro de suas outras partes ainda separadas. Cada ajuda bem sucedida trazia mais inteireza ao grupo e cada corda que voltava trazia consigo experiências únicas que depois de partilhadas pertenciam a todo o grupo. Com isto, em se fazendo muitas, a primeira corda, a maior e mais forte delas, quando recebe suas partes, agora individualizadas de volta, não recebe mais a mesma parte sua que partiu, ingênua e virgem, recebe uma parte experiente, desbravadora, transformadora que traz muitas estórias para compartilhar, e assim novamente unida, expande e expressa a corda de onde se originou. E todas juntas são muito mais do que eram antes. São ao mesmo tempo o que sempre foram e o que se tornaram. São a origem e o fim. São todas e são, também, apenas uma.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A GALINHA, O OVO E A NOVA ERA de Lisélia de Abreu Marques

Havia um ovo. Ele se sabia ovo desde sempre. Ele tinha sua forma e aparência e assim que era. Havia outros ovos como ele e ser ovo era estar vivo. Este ovo um dia percebeu que algo estava acontecendo, alguma coisa estava mudando, uma energia diferente, um calorzinho novo. Ele pensou logo no aquecimento global. O ovo foi sentindo este calorzinho e foi se sentindo diferente, desconfortável, as coisas estavam saindo do controle. Ele estava com pensamentos estranhos, irritado e não conseguia dormir direito. O ovo começou a sentir medo. Sentia que algo estava acontecendo e que a vida não seria mais como antes. Então o medo fez com que ele começasse a resistir às mudanças. O futuro era incerto, o tempo passava cada dia mais rápido e ele ouvia os outros ovos comentando de que o fim do mundo estava próximo. Ele ouviu falar em nova era e mudanças globais de larga escala. Ele ouviu falar em morte. Os ovos comentavam que o aquecimento global iria provocar o fim da civilização dos ovos, que uma nova era iria surgir e eles, os ovos, não iriam sobreviver. Ele realmente estava muito assustado. O ovo decidiu então resistir às mudanças, ele era um ovo e iria lutar até o fim para que a vida como ele conhecia não se acabasse. E quanto mais o ovo resistia às mudanças, mais ele sofria, era um esforço tremendo para controlar as coisas. A vida estava mudando, já não era mais a mesma, e por mais que se esforçasse parecia que tinha perdido o controle. O esforço para manter tudo como antes, era desgastante e inútil, ele se sentia um perdedor, estava fraco e deprimido. Chegou ao fundo do poço, não tinha mais forças, nem esperança e pediu ajuda. Rezou à Grande Galinha, a Deusa de todos os ovos. Pediu proteção, ajuda, disse que estava se sentindo fraco e sozinho. Chorou, chorou muito. O ovo, já sem forças para lutar ia se entregando à depressão. Então, numa noite teve um sonho, sonhou que a grande galinha falava com ele. Ela dizia: Meu filho amado, você é perfeito e a ti estão prometidos todos os tesouros. Não lute contra a vida e contra as transformações. A vida é movimento. Se permita ser levado pelo rio da vida e fluir com ele. A morte não existe, é apenas uma transição para uma vida maior. A vida que você leva hoje é passageira, não é a sua verdadeira vida. Você não é um ovo e pronto. Sua verdadeira essência é ser uma galinha como eu. Você é meu filho, feito minha imagem e semelhança. Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser. O ovo acordou do seu sonho emocionado, uma nova esperança tocava seu coração. Ele sentiu coragem para se entregar às mudanças. Sentia o calorzinho da energia da evolução tocar em sua casquinha e lembrava de seu sonho e repetia : “ Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser.” E assim foi, o ovo relaxou e a vida ficou mais leve, ele se pegava cantarolando: ... “deixa a vida me levar, vida leva eu” do Zeca Pagodinho e se sentia mais descontraído e mais bonito. O desgaste que ele tinha, tentando controlar tudo, havia diminuído e ele tinha mais energia pra curtir a vida. Ele percebeu que quando parou de gastar energia lutando contra a morte sobrou mais energia pra viver a vida. O tempo foi passando e um dia, algo horrível começou a acontecer. Os ovos, seus amigos, que toda a vida compartilharam o mesmo ninho que ele começaram a se quebrar. Era horrível, uma desolação - ovos partidos, casquinhas pra todo lado, um vazio, não havia nada dentro deles, ele se sentiu apavorado, os ovos que ainda estavam inteiros começaram a se lamentar e se voltar contra a grande galinha, dizendo que ela os tinha abandonado e que ela, na verdade, nem existia, porque se existisse não permitiria tanta destruição. O ovo estava desolado, ele lembrava do sonho e duvidava de si mesmo. Pensava: - como pode ser? E as promessas que sempre ouvimos de salvação? Eles sempre foram ovos bonzinhos, bons amigos, corretos, não é justo que isto aconteça com eles. A destruição, a morte , o desespero e o caos era só o que se via e sentia. O ovo estava confuso, apesar de toda aquela desgraça ele ao mesmo tempo se sentia leve, parecia que a vida estava melhor, mesmo estando pior, ele não entendia. Havia um equilíbrio dentro dele, mesmo com os ovos “morrendo” ao seu lado ele sentia uma paz profunda como jamais havia sentido antes, era quase um estado de graça e então, ele ouviu um estalo e outro, e passivo apenas observava e aceitava as coisas como estavam sendo naquele momento. Ele estava presente no aqui e no agora intensamente; e de repente uma luz muito grande surgiu e irritou seus olhos, ele respirou uma brisa fresca e quando ele conseguiu abrir os olhos um mundo de cores e formas jamais percebidas, apareceram ao seu redor. Era um mundo enorme, sem fim, rico, com milhões de formas de vida, antes inimagináveis. E ela estava lá, a grande galinha e olhava pra ele. Então ele perguntou: - eu morri? Estou no céu? E a galinha carinhosa respondeu: - Não meu filho você nasceu, você se tornou aquilo que você foi criado para ser. Olhe pra si mesmo e veja. Então ele se olhou e viu que era um pintinho e se parecia muito com a grande galinha. E ele perguntou: e os meus amigos, o que aconteceu com eles? Então ela se afastou e ele pode ver atrás dela todos os seus amigos ovos, que haviam tido suas casquinhas quebradas, também pintinhos como ele. E foi uma alegria tão grande, tão grande... Foi emocionante! Tudo fez sentido, ele entendeu então porque as coisas tinham acontecido daquela maneira, porque os ovos precisavam morrer para os pintinhos nascerem e serem livres pra crescerem e se tornarem aquilo que eles foram criados pra ser. Ele entendeu que o que parecia destruição e caos era transformação. A galinha e os demais pintinhos saíram passeando com ele pelo jardim e mostraram as sementes morrendo para o nascimento do broto, mostraram o sol irradiando energia transformadora para que isto acontecesse, mostraram outros pintinhos mais velhos perdendo sua plumagem para que as penas permanentes surgissem e ele foi entendendo tudo, entendendo como morte e vida são a mesma coisa, como tudo segue o fluxo de transformação. Então ele parou e pensou e perguntou pra galinha: - Mãe, por que quando eu era ovo não via nada disso? Então cheia de amor a galinha respondeu: Quando você era ovo, você tinha uma casquinha em volta que limitava sua percepção da realidade mais ampla, você vivia enclausurado naquela casquinha que impedia que você percebesse a luz do dia brilhando com toda a sua intensidade, a casquinha, o seu corpo físico durante aquele estágio de desenvolvimento limitava a sua percepção. O pouco que você ouvia daqui, chegava lá destorcido e abafado. Quando eu falava com você, você achava que era sonho. Quando seus irmãos que haviam rompido a casquinha se aproximavam de você, você não os via e quando sentia a presença deles, achava que eram fantasmas. Este período de ovo é uma fase muito difícil, porque as limitações impostas pelas condições de ovo dificultam o contato com o mundo aqui. E o medo do desconhecido, o apego a vida de ovo, a resistência à mudança, às vezes até afasta um ovo dos demais e, isolado, mais longe, mais frio fica e mais solidão sente o ovo. É um momento passageiro, de transição, mas quando o ovo se apega muito a este estágio da vida, fica mais difícil pra ele se permitir transformar pelo calor da evolução. Veja, meu filho, o seu ninho, ainda têm ovos lá que estão amadurecendo e nós aqui estamos torcendo pra que eles se entreguem ao calor da evolução e logo possam estar pintinhos como vocês. Então o pintinho olhou pros seus irmãos ainda ovos com muito amor e olhou pra si e pro seus irmãos pintinhos e pensou: - então é verdade, “nós somos aqueles por quem esperávamos” e todos juntos se aproximaram da galinha e com o calor dos corpos deles, todos unidos, assistiram os últimos ovos eclodirem.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

CAMINHANDO SOBRE A ÁGUA (verificando autoria)


Um certo brâmane eremita construiu sua cabana próximo a um grande rio. Todos os dias uma ordenhadora atravessava o rio numa barcaça para lhe levar o leite que ela mesma ordenhava de suas ovelhas na outra margem do rio. Às vezes ela se atrasava e isso deixava o brâmane aborrecido. A ordenhadora se desculpava dizendo que muitas vezes tinha de esperar pela barcaça que estava do outro lado do rio. - Que grande bobagem, esbravejou o brâmane com desdém. Mas que barcaça que nada. E em seguida disse: com certa hesitação: Filha, uma criatura de fé, com o nome de Deus no coração e nos lábios, é capaz de caminhar sobre as águas de um mar revolto e infinito, de mortes e renascimentos inumeráveis, até a mais distante praia. Será que as pobres águas de um rio podem deter os pés de quem tem fé? A ordenhadora ficou diante do homem santo envergonhada e em silêncio. Em seguida, curvou-se diante dele, tomando um pouco da poeira dos seus pés e colocando-a sobre sua testa. No dia seguinte, a ordenhadora chegou bem cedo e na hora certa e, assim, também todos os dias que se seguiram. O brâmane estava encantado com o seu zelo e, finalmente, perguntou-lhe: - O que aconteceu que você agora tornou-se tão pontual? A garota respondeu: " Mestre, estou fazendo, aquilo que o senhor me recomendou que fizesse. Com o nome de Deus nos lábios e no coração, eu caminho sobre as águas; meus pés não afundam, nem tampouco preciso da barcaça para me atravessar. O brâmane ficou silenciosamente encantado diante do poder miraculoso de Deus na boca e no coração de uma criança tão simples; mas não demonstrou nada do que sentia, apenas disse: -Você faz muito bem em agir assim. Irei com você e observarei o seu caminhar sobre as águas, e eu mesmo caminharei ao seu lado quando atravessarmos o rio". Ele queria observar o milagre acontecendo para a garota; se aquela coisinha jovem podia fazê-lo, então, com certeza, o milagre iria acontecer com ele também. Quando chegaram à margem do rio, os lábios da garota se moviam silenciosamente; olhando para a frente ela sussurrava constantemente o nome de Deus e flutuava leve como uma pluma sobre a água. O rio fluía apressado sob seus pés sem salpicar-lhe as vestes. A sola de seus pés não pareciam tocar as águas. O brâmane, impressionado com o que via, apressou-se em levantar um pouco a bainha de sua túnica e começou a murmurar o nome de Deus à medida que se aproximava da água. Mas não conseguiu acompanhar a menina, que estava sempre adiante como se fosse uma pluma e voasse como um pássaro, e se viu prestes a afundar. A garota notou que isto ia acontecer e começou a rir alegremente, ao mesmo tempo que se distanciava cada vez mais dele, dizendo: - Não me admira, Mestre, que o senhor esteja afundando! Como é que o nome de Deus vai conseguir sustentá-lo sobre as águas quando no próprio ato de invocar o nome Dele o senhor levanta a barra da túnica de medo que ela se molhe?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

CARINHOS QUENTES - UMA ESTÓRIA DE CARÍCIAS de Claude Steiner

Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, Antonio e Maria, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo.
Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar uma doença nas costas que as fazia murchar e morrer.
Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão na sacolinha surgia um Carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz o Carinho se expandia e se transformava num grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia toda bem.
As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.
Um dia uma bruxa má ficou brava porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e ungüentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã chegou perto de Antonio enquanto Maria brincava com a filha e cochichou em seu ouvido: "Olha, Antonio, veja os carinhos que Maria está dando à Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum para você".
Antonio ficou admirado e perguntou: "Quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente na sacola?"
E a bruxa respondeu: "Eles podem se acabar e você não os ganhará mais". Dizendo isso a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito.
Antonio ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então começou a se queixar a Maria, de quem gostava muito, e Antonio também parou de dar carinhos aos outros, reservando-os somente para ela.
As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos foram ficando cada vez mais mesquinhos.
As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quentes e acarinhadas e algumas chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes. Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir ungüentos e poções.
Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porque se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e ungüentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam um saquinho que era muito parecido com o Saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os Espinhos Frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem.
Daí para frente, sempre que alguém dizia "Eu quero um Carinho Quente", aqueles que tinham medo de perder um suprimento respondiam: "Não posso lhe dar um Carinho Quente, mas, se você quiser, posso dar-lhe um Espinho Frio".
A situação ficou muito complicada porque desde a vinda da bruxa havia cada vez menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los.
Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam se reunir em grupos de três, quatro, cinco, sem se preocuparem com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a se juntar aos pares, e a reservar todos os seus Carinhos Quentes exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para obter dinheiro para comprá-los.
Outra pessoas se tornavam simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda, pegavam os Espinhos Frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes. Eram na verdade Carinhos falsos, de plástico, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas se juntavam e trocavam entre si, livremente, os seus Carinhos de Plástico. Sentiam-se bem em alguns momentos mas, logo depois, sentiam-se mal. Como pensavam que estavam trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.
A situação, portanto, ficou muito grave.
Não faz muito tempo uma mulher muito especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar na bruxa e não se preocupava que os Carinhos Quentes acabassem. Ela os dava de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude porque a mulher dava às crianças a idéia de que não deviam se preocupar com que os Carinhos Quentes terminassem, e a chamavam de Pessoa Especial.
As crianças gostavam muito da Pessoa Especial porque se sentiam bem em sua presença e passaram a dar Carinhos Quentes, sempre que tinham vontade.
Os adultos ficaram muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício de seus Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças porém, apesar da lei, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou que alguém os pedia. Como existiam muitas crianças parecia que elas prosseguiam seu caminho.
Ainda não sabemos dizer o que acontecerá. As forças da lei e da ordem dos adultos forçarão as crianças a parar com sua imprudência? Os adultos se juntarão à Pessoa Especial e às crianças e entenderão que sempre haverá Carinhos Quentes, tantos quantos forem necessários? Lembrar-se-ão dos dias em que os Carinhos Quentes eram inesgotáveis porque eram distribuídos livremente? Em qual dos lados você está? O que você pensa disto?