Mostrando postagens com marcador Desapego. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Desapego. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

VENDE-SE TUDO de Martha Medeiros


No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.
O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.
Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros. .

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida...
 
Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.
Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DIFÍCIL SER TRANSPARENTE ?


Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente?
Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros.

Mas ser transparente é muito mais do que isso. É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente...

Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar...

Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde!

Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco.

Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana.

Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser...

Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo! Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção...

E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos.

Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado.
Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar, doçura, compaixão...

a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos...

daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos!
Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: você está me machucando... pode parar, por favor?

Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro.

Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanta dor...

Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura! Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencível.

Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto que consigamos docemente viver... sentir, amar... E que você seja não só razão, mas também coração, não só um escudo, mas também sentimento.

Seja transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar.

(desconheço o autor)

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

A LIBERTAÇÃO DO APEGO E DA COBIÇA - Santuário N. Srª do Carmo - Curitiba/PR

"...Desapego não significa doar seus bens e viver debaixo da ponte ou na solidão de uma montanha qualquer. Desapego significa não acumular coisas desnecessárias tanto físicas quanto intelectuais. É bem mais difícil desapegar-se de uma idéia, pensamento ou um sentimento do que de objetos. Apegos se manifestam por coisas, idéias, pessoas e propriedades. O apego é um reflexo do medo. O apego surge da necessidade que temos de nos sentir cada vez mais seguros. Apego é medo e necessidade de segurança extremos. Devemos aprender a olhar sem desejar. É uma práxis, uma virtude. O olhar que apenas olha, não cobiça. O olhar quando acompanhado do pensamento desperta o desejo de posse e projeta a mente para a ação de obter. E a não obtenção do objeto desejado, gera frustração. Dizia um sábio (um monge do deserto) que “Todas as coisas necessárias nos vêm à mão”. Precisamos ter paciência e esperar a hora certa. O que obteremos fora da hora não nos pertence de verdade. Muitas vezes nos tornamos prisioneiros de nossas posses e perdemos nossa paz por causa disto. A paz perde-se, também, quando desejamos coisas que estão fora do nosso alcance. Tudo o que fizeres na vida, deverá partir de um ato de desapego. O apego invalida toda a ação e a torna objeto do ego. A verdadeira riqueza, que é eterna, está dentro de nós. São nossos sentimentos e valores. Desapegar do nosso próprio ego, não é esmagá-lo, humilhá-lo ou destruí-lo. Não é jogar longe, fora , é só abrir a mão, não se prender, nem se centrar somente no ego. Lembremos que antes de desapegar é preciso ter, pois sem ter não há do que se desapegar. Portanto, não se trata de não ter, mas sim, de ter e não se apegar. É muito mais fácil desapegar em tese do que de fato. Sabemos tão bem fazê-lo com aquilo que nós não temos, gerenciando facilmente o desapego que os outros deveriam fazer. Mas, e o nosso? O egocentrismo é colocar o ego como centro. Desapego ao ego é tão simplesmente deixá-lo na periferia do ser, que é o seu importante lugar. O ego é o porta-voz de nossa essência, do si mesmo, mas não a própria voz da essência. O eu, com sua força vital, é porta voz da alma, mas não é a própria alma. É importante termos claro isto. Devemos nos livrar dos pesos, fardos de pecados-desvios, para ficarmos mais leves. É para nós mesmos que o fazemos. É desapego, abrir mão das teimosias, flexibilizar nossa dura “cérvix” do orgulho, amolecendo a carne dura do nosso coração. É liberar-se da obsessão pelos meios como se eles fossem o fim. É entregar-se por completo nas mãos de Deus. É a 'realização do prejuízo' para se projetar e prosperar renovados sonhos de transformação. A arte da fé de entregar-se a DEUS é a sabedoria que nos falta. Como entender o desapego? Pode-se utilizar a imagem de um castiçal para entendermos a importância do desapego e da renúncia em nossas vidas: para utilizar bem um castiçal devemos limpá-lo das velhas velas acumuladas, desapegarmos delas, para que a nova luz brilhe límpida. Assim também, muitas vezes fazemos em nossas vidas. Apegamo-nos em demasiado em nossas antigas velas que já não iluminam mais. Não querendo receber a luz nova..."
http://www.carmo.org.br/portal/index.php?tt=homler&id=11&PHPSESSID=1a61ef7229d4e60da08133bb56bd7836

domingo, 23 de dezembro de 2007

SABER A HORA DE ABANDONAR O BARCO

Buda costumava contar muitas e muitas vezes uma estória. Cinco homens estavam passando por uma aldeia. Vendo-os, as pessoas ficaram surpresas, porque eles estavam carregando um barco em suas cabeças. O barco era realmente grande: eles estavam quase morrendo sob o peso dele. E as pessoas perguntaram: "O que vocês estão fazendo?" Eles responderam: "Não podemos deixar este barco. Este é o barco que nos ajudou a vir da outra margem para esta margem. Como podemos deixá-lo? É graças a ele que fomos capazes de chegar até aqui. Sem ele, teríamos morrido na outra margem. A noite estava chegando, e havia animais selvagens na outra margem; com absoluta certeza, pela manha estaríamos mortos. Nunca abandonaremos este barco. Estaremos em débito, por toda a vida: Nós o carregamos sobre nossas cabeças em pura gratidão."

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

LUTANDO COM A VIDA de Lisélia de Abreu Marques

Tô aqui sofrendo, tá doendo e não passa. Quando as coisas não acontecem como eu sonho, planejo, espero que aconteçam, eu sofro. Eu sintonizo aquela estação de desesperança e dor. Coloco aqueles óculos de lentes cinzas e arrasto as minhas correntes como uma alma penada num castelo mal assombrado. Não porque eu queira sofrer, mas porque dói. A dor acontece quando o que eu queria que fosse bate de frente com a realidade que não é como eu queria que fosse e sim como ela é mesmo. A dor é a tensão entre estas duas forças em choque, em luta. Estou sofrendo porque queria que a vida fosse toda certinha do jeito que eu acho que ela deveria ser. Só que a vida não é. Mas eu não aceito que a vida seja diferente do que eu quero que ela seja. Continuo querendo que a vida seja do meu jeito. Aí eu meço forças com a vida. A força do meu querer contra a força da vida. Quem será que é mais forte, o meu querer ou o querer da vida? É óbvio que a vida, a realidade é mais forte que o meu querer, então eu me revolto, eu me desgasto, eu suo, eu sofro. Eu sei que há coisas que dependem de mim e eu posso fazer acontecer e que há outras coisas que não. Sei que não posso fazer ninguém me amar ou estudar ou mudar de vida. Não posso fazer ninguém largar um vício ou pensar diferente do que pensa. Só a própria pessoa tem este poder. Então eu me deparo com a minha própria impotência e me sinto vulnerável, sem forças para forçar a vida a ser como eu quero que ela seja. Sinto que a vida é a mais forte e eu a mais fraca. A vida lá fora vence e eu, aqui, perco. Aos vencedores à vida, aos perdedores, à morte. Acaba tudo virando uma enorme questão de vida ou morte e eu não posso perder, eu não posso morrer. Então eu parto pra uma luta corpo a corpo com a vida.
Todo mundo sabe que a força com que a gente empurra a parede é a mesma força que a parede imprime de volta na nossa mão. Então quanto mais eu bato na parede, mais a minha mão se arrebenta e dói. O tanto que eu bater na vida é o tanto que eu vou apanhar dela. O tanto que eu relaxar com a vida é o tanto que a vida vai relaxar comigo. O tanto que eu acarinhar a vida vai ser o tanto que ela vai me acarinhar de volta. Então, se eu tô aqui sofrendo é porque estou forçando a minha vontade sobre a vida, querendo dobrá-la custe o que custar. Sendo assim, só me resta então relaxar e baixar a guarda. Eu até posso entender isto. Uma coisa é entender, a outra é querer. Eu entendo que malhar faz bem, mas e daí? Eu até entendo que não posso forçar a vida ou os outros a fazerem a minha vontade, a realizarem os meus desejos, mas como parar de querer isto? Só consigo imaginar um jeito: Se curvando à realidade. Aceitando que há coisas que eu não posso ter do meu jeito. Essa é a realidade e, a menos que eu esteja perdendo a razão e vendo tudo distorcido, é assim que é.
Esta situação me lembra a Oração da serenidade, é bem isto, nela ora-se: Deus, dê-me serenidade para poder aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso mudar e sabedoria para distinguir umas das outras... Dá-lhe serenidade!!! Dá-lhe sabedoria!!! Ou melhor, dê-me serenidade e dê-me sabedoria. Amém.
Brasília, 04/12/2007.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

DEUS É FELIZ de Lisélia de Abreu Marques

Estes dias me dei conta de que Deus era feliz. Fiquei surpresa com esta idéia. Sempre imaginei Deus um cara chato, carrancudo, caxias, pentelho mesmo! Pegando no pé de todo mundo pra que todo mundo fosse certinho. Percebi que esta chata era eu, eu fazendo Deus minha própria imagem e semelhança. Deus era feliz, independente de qualquer coisa, independente da minha projeção, da minha chatice, da minha própria exigência de perfeição. Deus está numa boa, vivendo feliz e curtindo a eternidade numa boa. Esta idéia me trouxe duas conclusões, a primeira: um cara de bem com a vida, só pode ser um cara legal e isto melhorou muito a imagem que eu tinha de Deus. E já que ele é um cara legal, eu quero ser amiga dele. Afinal de contas quem quer um chato carrancudo por perto dizendo que você está errada toda hora? Ninguém. Agora, ser amiga de um Deus gente boa, é outro departamento. A segunda conclusão foi que se ele é bacana e feliz, vai querer que todos se sintam felizes também, vai aprovar a alegria, a festa, a folga, a curtição e todas as coisas que fazem a vida parecer férias. Bom demais. Foi aí que eu esbarrei em outra neura minha. A vida tinha que ser chata pra parecer que estava sendo levada a sério. Olha que loucura!? , mas aí já é outro texto. De insight em insight fui vendo que as cores do mundo que vejo são pintadas pelas lentes dos óculos que escolho usar. Deus não tem nada a ver com isto e eu sempre botava a culpa nele. Nesta hora acho que ele está curtindo muito prazer em ser quem é e viver a vida que vive. Nesta hora, eu queria mesmo, era me sentir a imagem e semelhança Dele e criar pra mim uma vida como a Dele: de prazer, amor, criatividade, felicidade, novidade e tudo o mais que existe de bom. Afinal, filho de peixe, peixinho é. Queria por mais fé no que se diz por aí: " se eu não sou o dono do mundo, pelo menos sou filho do dono", no caso, filha. Uma hora eu chego lá.
Brasília, 03/12/2007.

AUTOBIOGRAFIA EM CINCO CAPÍTULOS (verificando autor)

Capítulo I

Estou andando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio dentro dele.
Estou confusa, assustada. A culpa não é minha.
Leva muito tempo para descobrir um jeito de sair.

Capítulo II

Estou andando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Finjo que não vejo.
E acabo caindo nele outra vez.
Não quero acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

Capítulo III

Estou andando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu o vejo, mesmo assim caio nele outra vez... já é um hábito.
Meus olhos estão abertos, sei onde estou.
É culpa minha.
Saio imediatamente.

Capítulo IV

Estou andando na mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu o contorno.

Capítulo V

Ando por uma outra rua.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

OS DOMINGOS PRECISAM DE FERIADO do Rabino Milton Blonder

Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue. Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta. Hoje, o tempo de 'pausa' é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações 'para não nos ocuparmos'. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo... Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme.As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado...Nossos namorados querem 'ficar' , trocando o 'ser' pelo 'estar'. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI - um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos... Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair - literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é 'o que vamos fazer hoje?' - já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de Domingo. Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande 'radical livre' que envelhece nossa alegria - o sonho de fazer do tempo uma mercadoria.Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.
Rabino Nilton Bonder, Congregação Judaica do Brasil