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sábado, 2 de janeiro de 2010

"CONVERSA DE LOUCO" de Lisélia de Abreu Marques

−A Verdade é perigosa, faz desmoronar as nossas mentiras.
−E as mentiras, pra que servem?
−Pra nos proteger das verdades que não queremos ver.
−E por que não ver a verdade?
−Para não ter de mudar.
−E por que ficar onde estamos?
−Medo. Medo do desconhecido, medo do "talvez", medo de ficar pior do que está. Na mentira já temos um "sim", mesmo falso.
Uma jóia falsa na mão parece melhor do que uma mão vazia, do que a espera, do que o "talvez",  do que um improvável sim. Um "sim" verdadeiro parece tão utópico, tão fora do alcance, tão apenas para os outros.
"A grama do vizinho é sempre mais verde" e isto soa como verdade. Então é mais garantido uma grama sintética sempre verde do que grama nenhuma.
Eis o falso conforto que a ilusão proporciona. A ilusão de um casamento sem paixão. A ilusão de uma profissão sem tesão. A ilusão de que estamos vivendo, quando, na verdade, estamos fugindo da Vida. Afinal de contas, viver é perigoso. A gente pode morrer quando se está vivo. Mas se a gente não se atrever a viver, então, está tudo bem - A morte não procura os que já estão mortos.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

TORNAR-SE OCEANO de Osho

Diz-se que, no momento em que o rio está prestes a
cair no oceano ele treme de medo.
Olha para trás, para toda a jornada,
os cumes das montanhas,
o longo caminho sinuoso através das florestas,
através dos povoados,
e à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele
nada mais é do que desaparecer para sempre.
Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar.
Ninguém pode voltar.
Voltar é impossível na existência.
Você pode apenas ir em frente.
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano.
Somente quando ele entrar no oceano é
que o medo desaparecerá.
Porque somente assim o rio saberá que
não se trata de desaparecer no oceano,
mas tornar-se oceano.
Por um lado é desaparecimento e
por outro lado é renascimento.
Assim somos nós.
Só podemos ir em frente e arriscar.
Coragem !!!
Avance firme e
torne-se Oceano!!!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A ARMADURA de Lisélia de Abreu Marques

... eu criei uma armadura "forte" para compensar
a criança assustada e frágil que eu ainda sou.




Criei uma armadura que eu achava que iria me proteger.
E a criatura tomou vida própria e eu passei a acreditar que
eu era a minha própria criação. Passei a acreditar que eu era a armadura que eu havia criado para me proteger.



Mas eu fui crescendo dentro da armadura e fui começando a sufocar dentro dela. E mais uma vez, pra sobreviver, fiz um movimento, desta vez,
o de ir retirando a armadura aos poucos.
Dói.
Tem partes da armadura que já grudaram
na minha pele, simbiotizou
e é difícil até saber que parte sou eu,
que parte é a armadura.
Ao mesmo tempo parece que estou mais leve,
também parece que estou sem contornos, sem forma.
Estou me desconstruindo, isto é muito bom.
A imagem que criei de quem eu deveria ser
para sobreviver à vida/morte, está se desfazendo.
Eu não sei mais o que é uma qualidade verdadeira
e saudável minha e o que é uma distorção.
As coisas não são mais tão simples de analisar.
Entrei em contato com o meu
medo mais antigo e mais devastador.

Estou mais humana, mais criancinha, mais desprotegida.
Não quero reconstruir a armadura,
quero crescer do jeito certo.

sábado, 26 de janeiro de 2008

MEDO e RAIVA de Lisélia de Abreu Marques

Ao longo de milhões de anos de evolução, desenvolvemos mecanismos de defesa que asseguraram a preservação da nossa espécie. Sob ameaça nosso corpo coloca-se em estado de alerta e aciona vários mecanismos que provocam, entre outras reações, o aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. A respiração acelera, aumenta a capacidade de coagulação do sangue e a energia dos músculos aumenta. Estas mudanças, entre outras, preparam o corpo para fugir ou lutar.
Em face de uma ameaça podemos lutar contra ela ou fugir dela. A ameaça da qual nos defendemos pode ser real - um ataque de um cão violento, um assalto, um perigo imediato - ou imaginária. Uma ameaça imagiária pode ser a presença de um colega muito competente que está chamando a atenção do chefe, por exemplo.
As reações de luta e fuga estão diretamente ligadas à raiva e ao medo. Quando sentimos raiva, lutamos.
Quando sentimos medo, de modo geral, fugimos. Quase sempre é o medo de se ferir, de sofrer e de morrer.
A raiva geralmente encobre uma dor. Ao longo da vida, somamos feridas emocionais, na sua maioria, ainda abertas. Estas feridas quando tocadas por palavras e/ou atitudes doem. Então, nos sentimos ameaçados e podemos responder com a raiva. Por baixo de uma raiva há uma dor. Às vezes nos distraímos com a raiva e não notamos a dor que está por tras dela. Muitas vezes, uma dor tão intensa, que reagimos imediatamente atacando o outro pra nos defender. É importante perceber esta dor. Não deixar que a raiva nos distraia. É bom lembrar que não apenas quem sente medo sente-se ameaçado; quem sente raiva também sente-se ameaçado, sente a dor e ataca de volta.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A GALINHA, O OVO E A NOVA ERA de Lisélia de Abreu Marques

Havia um ovo. Ele se sabia ovo desde sempre. Ele tinha sua forma e aparência e assim que era. Havia outros ovos como ele e ser ovo era estar vivo. Este ovo um dia percebeu que algo estava acontecendo, alguma coisa estava mudando, uma energia diferente, um calorzinho novo. Ele pensou logo no aquecimento global. O ovo foi sentindo este calorzinho e foi se sentindo diferente, desconfortável, as coisas estavam saindo do controle. Ele estava com pensamentos estranhos, irritado e não conseguia dormir direito. O ovo começou a sentir medo. Sentia que algo estava acontecendo e que a vida não seria mais como antes. Então o medo fez com que ele começasse a resistir às mudanças. O futuro era incerto, o tempo passava cada dia mais rápido e ele ouvia os outros ovos comentando de que o fim do mundo estava próximo. Ele ouviu falar em nova era e mudanças globais de larga escala. Ele ouviu falar em morte. Os ovos comentavam que o aquecimento global iria provocar o fim da civilização dos ovos, que uma nova era iria surgir e eles, os ovos, não iriam sobreviver. Ele realmente estava muito assustado. O ovo decidiu então resistir às mudanças, ele era um ovo e iria lutar até o fim para que a vida como ele conhecia não se acabasse. E quanto mais o ovo resistia às mudanças, mais ele sofria, era um esforço tremendo para controlar as coisas. A vida estava mudando, já não era mais a mesma, e por mais que se esforçasse parecia que tinha perdido o controle. O esforço para manter tudo como antes, era desgastante e inútil, ele se sentia um perdedor, estava fraco e deprimido. Chegou ao fundo do poço, não tinha mais forças, nem esperança e pediu ajuda. Rezou à Grande Galinha, a Deusa de todos os ovos. Pediu proteção, ajuda, disse que estava se sentindo fraco e sozinho. Chorou, chorou muito. O ovo, já sem forças para lutar ia se entregando à depressão. Então, numa noite teve um sonho, sonhou que a grande galinha falava com ele. Ela dizia: Meu filho amado, você é perfeito e a ti estão prometidos todos os tesouros. Não lute contra a vida e contra as transformações. A vida é movimento. Se permita ser levado pelo rio da vida e fluir com ele. A morte não existe, é apenas uma transição para uma vida maior. A vida que você leva hoje é passageira, não é a sua verdadeira vida. Você não é um ovo e pronto. Sua verdadeira essência é ser uma galinha como eu. Você é meu filho, feito minha imagem e semelhança. Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser. O ovo acordou do seu sonho emocionado, uma nova esperança tocava seu coração. Ele sentiu coragem para se entregar às mudanças. Sentia o calorzinho da energia da evolução tocar em sua casquinha e lembrava de seu sonho e repetia : “ Se deixe ser aquilo que você nasceu pra ser.” E assim foi, o ovo relaxou e a vida ficou mais leve, ele se pegava cantarolando: ... “deixa a vida me levar, vida leva eu” do Zeca Pagodinho e se sentia mais descontraído e mais bonito. O desgaste que ele tinha, tentando controlar tudo, havia diminuído e ele tinha mais energia pra curtir a vida. Ele percebeu que quando parou de gastar energia lutando contra a morte sobrou mais energia pra viver a vida. O tempo foi passando e um dia, algo horrível começou a acontecer. Os ovos, seus amigos, que toda a vida compartilharam o mesmo ninho que ele começaram a se quebrar. Era horrível, uma desolação - ovos partidos, casquinhas pra todo lado, um vazio, não havia nada dentro deles, ele se sentiu apavorado, os ovos que ainda estavam inteiros começaram a se lamentar e se voltar contra a grande galinha, dizendo que ela os tinha abandonado e que ela, na verdade, nem existia, porque se existisse não permitiria tanta destruição. O ovo estava desolado, ele lembrava do sonho e duvidava de si mesmo. Pensava: - como pode ser? E as promessas que sempre ouvimos de salvação? Eles sempre foram ovos bonzinhos, bons amigos, corretos, não é justo que isto aconteça com eles. A destruição, a morte , o desespero e o caos era só o que se via e sentia. O ovo estava confuso, apesar de toda aquela desgraça ele ao mesmo tempo se sentia leve, parecia que a vida estava melhor, mesmo estando pior, ele não entendia. Havia um equilíbrio dentro dele, mesmo com os ovos “morrendo” ao seu lado ele sentia uma paz profunda como jamais havia sentido antes, era quase um estado de graça e então, ele ouviu um estalo e outro, e passivo apenas observava e aceitava as coisas como estavam sendo naquele momento. Ele estava presente no aqui e no agora intensamente; e de repente uma luz muito grande surgiu e irritou seus olhos, ele respirou uma brisa fresca e quando ele conseguiu abrir os olhos um mundo de cores e formas jamais percebidas, apareceram ao seu redor. Era um mundo enorme, sem fim, rico, com milhões de formas de vida, antes inimagináveis. E ela estava lá, a grande galinha e olhava pra ele. Então ele perguntou: - eu morri? Estou no céu? E a galinha carinhosa respondeu: - Não meu filho você nasceu, você se tornou aquilo que você foi criado para ser. Olhe pra si mesmo e veja. Então ele se olhou e viu que era um pintinho e se parecia muito com a grande galinha. E ele perguntou: e os meus amigos, o que aconteceu com eles? Então ela se afastou e ele pode ver atrás dela todos os seus amigos ovos, que haviam tido suas casquinhas quebradas, também pintinhos como ele. E foi uma alegria tão grande, tão grande... Foi emocionante! Tudo fez sentido, ele entendeu então porque as coisas tinham acontecido daquela maneira, porque os ovos precisavam morrer para os pintinhos nascerem e serem livres pra crescerem e se tornarem aquilo que eles foram criados pra ser. Ele entendeu que o que parecia destruição e caos era transformação. A galinha e os demais pintinhos saíram passeando com ele pelo jardim e mostraram as sementes morrendo para o nascimento do broto, mostraram o sol irradiando energia transformadora para que isto acontecesse, mostraram outros pintinhos mais velhos perdendo sua plumagem para que as penas permanentes surgissem e ele foi entendendo tudo, entendendo como morte e vida são a mesma coisa, como tudo segue o fluxo de transformação. Então ele parou e pensou e perguntou pra galinha: - Mãe, por que quando eu era ovo não via nada disso? Então cheia de amor a galinha respondeu: Quando você era ovo, você tinha uma casquinha em volta que limitava sua percepção da realidade mais ampla, você vivia enclausurado naquela casquinha que impedia que você percebesse a luz do dia brilhando com toda a sua intensidade, a casquinha, o seu corpo físico durante aquele estágio de desenvolvimento limitava a sua percepção. O pouco que você ouvia daqui, chegava lá destorcido e abafado. Quando eu falava com você, você achava que era sonho. Quando seus irmãos que haviam rompido a casquinha se aproximavam de você, você não os via e quando sentia a presença deles, achava que eram fantasmas. Este período de ovo é uma fase muito difícil, porque as limitações impostas pelas condições de ovo dificultam o contato com o mundo aqui. E o medo do desconhecido, o apego a vida de ovo, a resistência à mudança, às vezes até afasta um ovo dos demais e, isolado, mais longe, mais frio fica e mais solidão sente o ovo. É um momento passageiro, de transição, mas quando o ovo se apega muito a este estágio da vida, fica mais difícil pra ele se permitir transformar pelo calor da evolução. Veja, meu filho, o seu ninho, ainda têm ovos lá que estão amadurecendo e nós aqui estamos torcendo pra que eles se entreguem ao calor da evolução e logo possam estar pintinhos como vocês. Então o pintinho olhou pros seus irmãos ainda ovos com muito amor e olhou pra si e pro seus irmãos pintinhos e pensou: - então é verdade, “nós somos aqueles por quem esperávamos” e todos juntos se aproximaram da galinha e com o calor dos corpos deles, todos unidos, assistiram os últimos ovos eclodirem.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

LUTANDO COM A VIDA de Lisélia de Abreu Marques

Tô aqui sofrendo, tá doendo e não passa. Quando as coisas não acontecem como eu sonho, planejo, espero que aconteçam, eu sofro. Eu sintonizo aquela estação de desesperança e dor. Coloco aqueles óculos de lentes cinzas e arrasto as minhas correntes como uma alma penada num castelo mal assombrado. Não porque eu queira sofrer, mas porque dói. A dor acontece quando o que eu queria que fosse bate de frente com a realidade que não é como eu queria que fosse e sim como ela é mesmo. A dor é a tensão entre estas duas forças em choque, em luta. Estou sofrendo porque queria que a vida fosse toda certinha do jeito que eu acho que ela deveria ser. Só que a vida não é. Mas eu não aceito que a vida seja diferente do que eu quero que ela seja. Continuo querendo que a vida seja do meu jeito. Aí eu meço forças com a vida. A força do meu querer contra a força da vida. Quem será que é mais forte, o meu querer ou o querer da vida? É óbvio que a vida, a realidade é mais forte que o meu querer, então eu me revolto, eu me desgasto, eu suo, eu sofro. Eu sei que há coisas que dependem de mim e eu posso fazer acontecer e que há outras coisas que não. Sei que não posso fazer ninguém me amar ou estudar ou mudar de vida. Não posso fazer ninguém largar um vício ou pensar diferente do que pensa. Só a própria pessoa tem este poder. Então eu me deparo com a minha própria impotência e me sinto vulnerável, sem forças para forçar a vida a ser como eu quero que ela seja. Sinto que a vida é a mais forte e eu a mais fraca. A vida lá fora vence e eu, aqui, perco. Aos vencedores à vida, aos perdedores, à morte. Acaba tudo virando uma enorme questão de vida ou morte e eu não posso perder, eu não posso morrer. Então eu parto pra uma luta corpo a corpo com a vida.
Todo mundo sabe que a força com que a gente empurra a parede é a mesma força que a parede imprime de volta na nossa mão. Então quanto mais eu bato na parede, mais a minha mão se arrebenta e dói. O tanto que eu bater na vida é o tanto que eu vou apanhar dela. O tanto que eu relaxar com a vida é o tanto que a vida vai relaxar comigo. O tanto que eu acarinhar a vida vai ser o tanto que ela vai me acarinhar de volta. Então, se eu tô aqui sofrendo é porque estou forçando a minha vontade sobre a vida, querendo dobrá-la custe o que custar. Sendo assim, só me resta então relaxar e baixar a guarda. Eu até posso entender isto. Uma coisa é entender, a outra é querer. Eu entendo que malhar faz bem, mas e daí? Eu até entendo que não posso forçar a vida ou os outros a fazerem a minha vontade, a realizarem os meus desejos, mas como parar de querer isto? Só consigo imaginar um jeito: Se curvando à realidade. Aceitando que há coisas que eu não posso ter do meu jeito. Essa é a realidade e, a menos que eu esteja perdendo a razão e vendo tudo distorcido, é assim que é.
Esta situação me lembra a Oração da serenidade, é bem isto, nela ora-se: Deus, dê-me serenidade para poder aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso mudar e sabedoria para distinguir umas das outras... Dá-lhe serenidade!!! Dá-lhe sabedoria!!! Ou melhor, dê-me serenidade e dê-me sabedoria. Amém.
Brasília, 04/12/2007.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

CARINHOS QUENTES - UMA ESTÓRIA DE CARÍCIAS de Claude Steiner

Era uma vez, há muito tempo, um casal feliz, Antonio e Maria, com dois filhos chamados João e Lúcia. Para entender a felicidade deles, é preciso retroceder àquele tempo.
Cada pessoa, quando nascia, ganhava um saquinho de carinhos. Sempre que uma pessoa punha a mão no saquinho podia tirar um Carinho Quente. Os Carinhos Quentes faziam as pessoas sentirem-se quentes e aconchegantes, cheias de carinho. As pessoas que não recebiam Carinhos Quentes expunham-se ao perigo de pegar uma doença nas costas que as fazia murchar e morrer.
Era fácil receber Carinhos Quentes. Sempre que alguém os queria, bastava pedi-los. Colocando-se a mão na sacolinha surgia um Carinho do tamanho da mão de uma criança. Ao vir à luz o Carinho se expandia e se transformava num grande Carinho Quente que podia ser colocado no ombro, na cabeça, no colo da pessoa. Então, misturava-se com a pele e a pessoa se sentia toda bem.
As pessoas viviam pedindo Carinhos Quentes umas às outras e nunca havia problemas para consegui-los, pois eram dados de graça. Por isso todos eram felizes e cheios de carinhos, na maior parte do tempo.
Um dia uma bruxa má ficou brava porque as pessoas, sendo felizes, não compravam as poções e ungüentos que ela vendia. Por ser muito esperta, a bruxa inventou um plano muito malvado. Certa manhã chegou perto de Antonio enquanto Maria brincava com a filha e cochichou em seu ouvido: "Olha, Antonio, veja os carinhos que Maria está dando à Lúcia. Se ela continuar assim vai consumir todos os carinhos e não sobrará nenhum para você".
Antonio ficou admirado e perguntou: "Quer dizer então que não é sempre que existe um Carinho Quente na sacola?"
E a bruxa respondeu: "Eles podem se acabar e você não os ganhará mais". Dizendo isso a bruxa foi embora, montada na vassoura, gargalhando muito.
Antonio ficou preocupado e começou a reparar cada vez que Maria dava um Carinho Quente para outra pessoa, pois temia perdê-los. Então começou a se queixar a Maria, de quem gostava muito, e Antonio também parou de dar carinhos aos outros, reservando-os somente para ela.
As crianças perceberam e passaram também a economizar carinhos, pois entenderam que era errado dá-los. Todos foram ficando cada vez mais mesquinhos.
As pessoas do lugar começaram a sentir-se menos quentes e acarinhadas e algumas chegaram a morrer por falta de Carinhos Quentes. Cada vez mais gente ia à bruxa para adquirir ungüentos e poções.
Mas a bruxa não queria realmente que as pessoas morressem porque se isso ocorresse, deixariam de comprar poções e ungüentos: inventou um novo plano. Todos ganhavam um saquinho que era muito parecido com o Saquinho de Carinhos, porém era frio e continha Espinhos Frios. Os Espinhos Frios faziam as pessoas sentirem-se frias e espetadas, mas evitava que murchassem.
Daí para frente, sempre que alguém dizia "Eu quero um Carinho Quente", aqueles que tinham medo de perder um suprimento respondiam: "Não posso lhe dar um Carinho Quente, mas, se você quiser, posso dar-lhe um Espinho Frio".
A situação ficou muito complicada porque desde a vinda da bruxa havia cada vez menos Carinhos Quentes para se achar e estes se tornaram valiosíssimos. Isto fez com que as pessoas tentassem de tudo para consegui-los.
Antes da bruxa chegar as pessoas costumavam se reunir em grupos de três, quatro, cinco, sem se preocuparem com quem estava dando carinho para quem. Depois que a bruxa apareceu, as pessoas começaram a se juntar aos pares, e a reservar todos os seus Carinhos Quentes exclusivamente para o parceiro. Quando se esqueciam e davam um Carinho Quente para outra pessoa, logo se sentiam culpadas. As pessoas que não conseguiam encontrar parceiros generosos precisavam trabalhar muito para obter dinheiro para comprá-los.
Outra pessoas se tornavam simpáticas e recebiam muitos Carinhos Quentes sem ter de retribuí-los. Então, passavam a vendê-los aos que precisavam deles para sobreviver. Outras pessoas, ainda, pegavam os Espinhos Frios, que eram ilimitados e de graça, cobriam-nos com cobertura branquinha e estufada, fazendo-os passar por Carinhos Quentes. Eram na verdade Carinhos falsos, de plástico, que causavam novas dificuldades. Por exemplo, duas pessoas se juntavam e trocavam entre si, livremente, os seus Carinhos de Plástico. Sentiam-se bem em alguns momentos mas, logo depois, sentiam-se mal. Como pensavam que estavam trocando Carinhos Quentes, ficavam confusas.
A situação, portanto, ficou muito grave.
Não faz muito tempo uma mulher muito especial chegou ao lugar. Ela nunca tinha ouvido falar na bruxa e não se preocupava que os Carinhos Quentes acabassem. Ela os dava de graça, mesmo quando não eram pedidos. As pessoas do lugar desaprovavam sua atitude porque a mulher dava às crianças a idéia de que não deviam se preocupar com que os Carinhos Quentes terminassem, e a chamavam de Pessoa Especial.
As crianças gostavam muito da Pessoa Especial porque se sentiam bem em sua presença e passaram a dar Carinhos Quentes, sempre que tinham vontade.
Os adultos ficaram muito preocupados e decidiram impor uma lei para proteger as crianças do desperdício de seus Carinhos Quentes. A lei dizia que era crime distribuir Carinhos Quentes sem uma licença. Muitas crianças porém, apesar da lei, continuavam a trocar Carinhos Quentes sempre que tinham vontade ou que alguém os pedia. Como existiam muitas crianças parecia que elas prosseguiam seu caminho.
Ainda não sabemos dizer o que acontecerá. As forças da lei e da ordem dos adultos forçarão as crianças a parar com sua imprudência? Os adultos se juntarão à Pessoa Especial e às crianças e entenderão que sempre haverá Carinhos Quentes, tantos quantos forem necessários? Lembrar-se-ão dos dias em que os Carinhos Quentes eram inesgotáveis porque eram distribuídos livremente? Em qual dos lados você está? O que você pensa disto?