terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SAUDOSISMO MINEIRO de José Antônio Oliveira de Resende


 Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
  
 Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
  – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
  – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
   
 A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
  
  Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
    – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
   
     Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
   
     Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança.... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

    Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa.. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
   
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
    – Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
    Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

   
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

    Que saudade do compadre e da comadre!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

VENDE-SE TUDO de Martha Medeiros


No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.
O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.
Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros. .

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.

Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que se torna cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida...
 
Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.
Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.

sábado, 2 de janeiro de 2010

APRENDA A GOSTAR DE VOCÊ de Mario Quintana





"Aprenda a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você...

A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando...
A vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar...
Mas uma coisa parece estar sempre presente... A busca pela felicidade, com o amor da sua vida.
Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?" E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?".
Como diz meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a gente sempre achava que era.
Cada namorado era o novo homem da sua vida.
Fazíamos planos, escolhíamos o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente...
PLAFT! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais expectativas a respeito "do próximo".
Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses.
Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva.
Procura um cara formado, trabalhador, bem resolvido,
inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite.
Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó, que jogue "imagem e ação" e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando você está de short,camiseta e chinelo.
A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação, já não tem o mesmo valor que tinha antes.
A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas, mas continuamos com a procura incessante por uma pessoa legal,que nos complete, e vice-versa.
Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta... E haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira.
Sem falar na diversidade, que vai do Forró ao Beatles.
Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som...
Olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora.
Com o tempo, voce vai percebendo que para ser feliz com
uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), e que não quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você! "

"CONVERSA DE LOUCO" de Lisélia de Abreu Marques

−A Verdade é perigosa, faz desmoronar as nossas mentiras.
−E as mentiras, pra que servem?
−Pra nos proteger das verdades que não queremos ver.
−E por que não ver a verdade?
−Para não ter de mudar.
−E por que ficar onde estamos?
−Medo. Medo do desconhecido, medo do "talvez", medo de ficar pior do que está. Na mentira já temos um "sim", mesmo falso.
Uma jóia falsa na mão parece melhor do que uma mão vazia, do que a espera, do que o "talvez",  do que um improvável sim. Um "sim" verdadeiro parece tão utópico, tão fora do alcance, tão apenas para os outros.
"A grama do vizinho é sempre mais verde" e isto soa como verdade. Então é mais garantido uma grama sintética sempre verde do que grama nenhuma.
Eis o falso conforto que a ilusão proporciona. A ilusão de um casamento sem paixão. A ilusão de uma profissão sem tesão. A ilusão de que estamos vivendo, quando, na verdade, estamos fugindo da Vida. Afinal de contas, viver é perigoso. A gente pode morrer quando se está vivo. Mas se a gente não se atrever a viver, então, está tudo bem - A morte não procura os que já estão mortos.

domingo, 27 de dezembro de 2009

DEZ DIAS: NA EUROPA,CRIANÇAS SE DESINTOXICAM DAS TELINHAS de Martine Laronche




Foram 10 dias sem televisão, sem computador, sem jogos eletrônicos. Dez dias de abstinência tecnológica que tornaram os 254 alunos de uma escola primária de Estrasburgo, no leste de França, em autênticos heróis dos ecrãs.


Apesar da tentação de se verem na TV e desfrutarem dos seus cinco minutos de glória, a grande maioria dos alunos aguentou o desafio. Tinham sido preparados para isso. Antes do lançamento da operação chamada Desafio - 10 dias para ver as coisas de outra maneira, o director da escola Ziegelwasser, Xavier Rémy, procurou a cumplicidade tanto dos alunos como dos pais do bairro onde se encontra a escola.


"Alguns até levaram a televisão para o sótão", comenta o director, orgulhoso da "seriedade" com que as crianças aceitaram o desafio.


Cada aluno teve de prestar contas do seu comportamento preenchendo diariamente uma espécie de caderneta de pontos - cuja soma estabelece o cômputo de cada turma - e um caderno diário sobre a experiência.


Mesmo que o balanço detalhado seja conhecido só daqui a um mês, não há dúvida que o jogo se saldou na vitória dos alunos frente ao poderoso ecrã.


Segundo os cálculos do director, as crianças superaram amplamente o objectivo para atingir 70% dos pontos.


Todo o bairro se mobilizou organizando encontros e actividades alternativas para ajudar os alunos. O momento mais delicado foi passar o fim de semana sem ver os desenhos animados ou jogar Nintendo.


"Recuperamos o costume de contar um conto à noite", confessou a mãe de Samuel, de 7 anos. Ele e os colegas de turma afirmam que repetiriam a experiência.


Thierri, de 8 anos, descobriu que ao ver a televisão "a gente está só" e que "é mais divertido jogar futebol com os colegas".


Para Rémy, este tipo de reflexões constitui o maior triunfo. "Sabemos que não há milagres, mas se ao menos, quando se carregar no botão para ligar a TV, perguntarem no futuro o que poderiam fazer em vez de ficarem sentados em frente à televisão, só isso, já é muito bom", argumenta.


Mais difícil para os adultos


Não só os filhos aprenderam com a experiência. Alguns pais confessam que sofreram mais que os filhos. "É duro, em casa não se ligar a TV o dia todo, mas senti a falta", confessa a mãe de Marie, de 6 anos. "Foi mais difícil para os pais que para as crianças", reconhece outra mãe.


Um dos efeitos benéficos dos 10 dias de desintoxicação televisiva consiste em modificar também o comportamento dos pais. "A mensagem que lhes chegou é que é preciso escolher melhor e distribuir o tempo que se passa em frente do ecrã", explica a professora Nicole Leniman.


A experiência alterou a vida familiar. Alguns pais decidiram que, a partir de agora, a televisão vai ficar apagada à hora das refeições. Outros propõem-se realizar mais actividades com os filhos.


A escola recebeu diariamente cerca de 50 cartas de apoio. "Todas as mensagens mostram que tocamos num ponto que afecta todos os lares e é um fenómeno social", assegura Rémy. Ele não teve cinco minutos, mas 10 dias de glória.